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Agro&cultura

O livro “Agronegócio e Indústria Cultural”, de Ana Manuela Chã é, por assim dizer, o resultado dos anos de militância no Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) e também de sua pesquisa no Mestrado em Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe, do Instituto de Políticas Públicas e Relações Internacionais da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP), este realizado em parceria com a Via Campesina e a Escola Nacional Florestan Fernandes.

Ana Chã lançou o livro em Fortaleza na sexta-feira (05), como parte da programação da III Conferência Internacional Memória, Cultura e Devir, uma parceria da Universidade Federal do Ceará (UFC) e da Universidade Nova de Lisboa, em Portugal, que também tem o apoio da Escola Nacional Florestan Fernandes.  A autora conversou com o Brasil de Fato sobre o tema de seu livro que gira em torno das ações de disputa ideológica que o agronegócio tem colocado em prática no Brasil.

A estratégia do agronegócio
"Uma das linhas de atuação prioritárias do agronegócio continua sendo o marketing. Não necessariamente um marketing de produtos, mas um marketing do projeto, por isso  eles têm campanhas gerais. Fica evidente o apoio das emissoras e meios comerciais, porque a própria Globo do 'Agro é tech, agro é pop' faz parte da Associação Brasileira do Agronegócio, Não é que eles estejam sendo pagos para fazer publicidade, eles acreditam que esse é mesmo um projeto de país que a gente precisa ter, então eles mesmo montam a campanha. Com esse cuidado de criar uma estética que é bem parecida com a da Rede Globo, que foi aquilo que durante anos foi considerado sendo bonito, uma imagem limpa, colorida, com atores e atrizes ou a própria estética dos produtos muito bonitos. Isso também na rádio e internet, porque são vários veículos onde as campanhas circulam.

Além disso, tem a atuação nas comunidades com projetos de educação, porque quase todas as empresas têm projetos nessa área ou no que eles chamam de responsabilidade social ou cultura, com projetos voltados ao meio ambiente, teatro, fotografia, bancando atividades culturais e espaços públicos. Bancando no sentido da proposta, porque muito disso é feito com dinheiro público de renúncia fiscal. O hidronegócio e a mineração também fazem parte disso. É uma estratégia comum das empresas. As mineradoras, mesmo com os ataques à cultura e à lei Rouanet, não diminuíram a atuação nessa área cultural, porque isso também limpa a imagem deles. Esse marketing cultural, desde que apareceu como uma política neoliberal de cultura, tem essa função definida de limpar a imagem das empresas que causam danos à sociedade."

A resposta dos movimentos populares
"Mesmo sabendo que é uma disputa desigual, não só por causa do dinheiro, mas pelo projeto político que eles defendem e que tem apoio da mídia comercial, nós temos apostado em fazer um diálogo com a sociedade, com a estratégia das feiras, armazéns do campo e jornadas universitárias em defesa da reforma agrária. Mesmo com fragilidades, temos tentado criar nas comunidades grupos culturais que possam fazer esse enfrentamento. A gente tem um projeto de educação do campo que não é só do MST, é algo maior para que nas escolas públicas do campo não seja o ensino igual ao da cidade, mas que leve em conta em qual território está inserido a escola, quem são os alunos… Isso com uma formação dos professores que possam trazer a realidade do campo e a realidade dos assentamentos. A educação é também um espaço de atuação e a gente tem se aventurado a fazer outras coisas, como a produção audiovisual, musical… Claro, com um alcance que é limitado, mas há um trabalho que vincula educação, cultura e comunicação."

Agro é pop?
"Efetivamente, o agronegócio se apresenta para a sociedade como a única possibilidade de modelo de produção agrícola para o Brasil. Eles reforçam isso de que há uma vocação agrícola no Brasil, de que somos o celeiro do mundo, então isso é uma ideia e nisso está subentendido de que não precisamos de reforma agrária, da distribuição de terras e nem da agricultura familiar. Eles constroem essa ideia e, quando eles não podem ignorar o enfrentamento, criam um discurso de que tudo faz parte do mesmo. A campanha do "Agro é pop" é muito simbólica nesse sentido. Em vários momentos as imagens e dados que aparecem são da produção da agricultura familiar e da reforma agrária e eles incorporam aquilo, tanto que não falam do agronegócio, só do agro, numa ideia de generalizar o campo. Enquanto o latifundiário não dá emprego, não produz alimentos, eles dizem que produzem comida, geram empregos e, através dos programas, dizem que levam cultura onde não tem. Agora eles não dizem qual cultura, com qual perspectiva e o que isso omite ou expõe de contradições."

Agronegócio e movimentos populares
"Essa mudança de estratégia tem a ver com o enfrentamento aos movimentos populares. A partir do momento em que eles intensificaram sua ação e expandiram seus territórios, os movimentos começaram a identificar o agronegócio como um inimigo direto e que precisava ser denunciado. Em 2006, tem um conjunto de ações dos movimentos, como na Aracruz, e se seguiram várias, especialmente no 8 de março. É aí que notamos uma investida deles no plano ideológico, porque aquilo que era fácil de ocultar, como o desmatamento e o monocultivo, viraram denúncias dos movimentos populares, que chamaram atenção e eles precisaram se posicionar perante a sociedade. Ao se posicionar contra os movimentos, é necessário esvaziar a pauta deles. Ao se colocar como projeto para o campo brasileiro, eles afirmam que os movimentos não precisam existir para nada. Ao mesmo tempo eles tiram do foco o apoio da sociedade e respondem as ações de denúncia."

O papel da educação
"A educação assusta o agronegócio. A gente vê no tipo de programa que eles financiam, porque é uma educação quase a-histórica ou com uma versão da história que não aponta contradições e o quão central é a questão da terra para entender hoje o tipo de sociedade que temos no Brasil. É uma educação para o trabalho, já que nas comunidades as formações técnicas vão montar a mão de obra deles e, por outro lado, é importante eliminar qualquer pensamento crítico. A educação no campo, por ser contextualizada, por ter um papel central na história, por fazer com que o indivíduo se reconheça naquele território como sujeito da sua história, assusta, porque quem tem consciência da situação de onde vive vai se manifestar contra ela e tentar se rebelar contra a ordem das coisas."

Fonte: Brasil de Fato
Foto: Divulgação

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