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What does the verb ‘to pretend’ mean? − pergunta Bartira aos seus jovens alunos no primeiro dia de aula do curso de Inglês.

To want! − responde quase em uníssono a classe composta, em sua maioria, por universitários da área de Ciências Humanas, cujos cursos funcionavam nos prédios ao redor dos bangalôs que abrigavam as ‘Casas de Cultura Estrangeira’, da Universidade Federal do Ceará (UFC), ali no bairro Benfica, em Fortaleza.

− Pretender! − alguém arrisca em português.

In English, please! − insiste a teacher.

No fundo da sala, uma voz feminina responde com firmeza:

‘To pretend’ means ‘to make believe’.

A cena, acontecida nos anos 1970, foi relembrada recentemente pela professora ao encontrar, casualmente, a ex-aluna que havia acertado a resposta.

− (Que menina danada!) − foi o seu pensamento sobre a desviada triunfal da pupila diante de uma clássica ‘casca de banana’, a pegadinha preferida de nove entre dez professores de Inglês no Brasil.

A verdade é que sempre tive muita facilidade para aprender idiomas. A minha principal preocupação − mais até do que adquirir fluência em conversação − era para com a gramática e a pronúncia, no caso a inglesa. Queria elevar o nível dos diálogos para além do ‘My name is Celma’, ‘My dog is black’ e ‘The book is on the table’, e  − muito metida − ainda me esforçava para falar sem sotaque.

Minha diversão favorita na escola de Inglês em Nova York − durante a temporada em que lá moramos em 1997 − era despistar os professores e coordenadores que se gabavam de identificar a procedência do aluno apenas pelo accent.

Eles induziam diálogos para que falássemos palavras como ‘well’, ‘very’, ‘woman’, ‘rain’ e ficavam só esperando o escorregão.

I’m very ‘weuu’!

− Brasileira! − eles diziam. Ponto pra eles.

‘Bery’ good!

− Hispânico*! − Bingo! Eles que me aguardem.

− She’s a beautiful ‘vooman’!

Russa! − Mais pontos para os danados.

− It´s gonna ‘lain’!

Japonês! − Essa é peace of cake, também, quem não saberia? (risos) Brincadeirinha, com meus caros colegas do Japão.

Na minha vez, eu, muito esperta, caprichava no ‘l’ final, com a língua enroladíssima lá no céu da boca:

− I´m very ‘wellllll’!

− Italiana?

− ‘Nop’! − eu começava a me divertir.

− Espanhola?

− Sorry! − eu já morrendo de rir da cara séria que eles faziam.

A plateia formada por, pelo menos, dez nacionalidades, estava a essa altura na maior torcida. Por mim, claro.

− Francesa?

− Give up! − eu brincava, e eles desistiam mesmo.

Nunca acertaram. Também pudera, duas décadas haviam se passado desde o episódio na Cultura Britânica da UFC, que, a propósito, funciona no mesmo endereço até hoje. Em NYC, meu olfato estava ainda mais apurado e eu farejava uma ‘casca de banana’ a milhas de distância. Os filhos do Tio Sam tombavam feio.

*Hispânico é um termo controverso, adotado pelo governo norte-americano para designar as pessoas residentes nos EUA, originárias de países de língua espanhola da América Latina.

Nota da autora: O capítulo “Casca de Banana” deixou de compor o livro “Descascando a Grande Maçã (Sete_2012), por sugestão de uma amiga.

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**Jornalista, escritora e membro do conselho editorial do AgroValor
 

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