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Por Camila Bitar

A jornalista cearense Celma Prata, 62 anos, estreou na literatura com o romance “O Segredo da Boneca Russa” [Editora Sete, 2018]. Lançado no final de novembro de 2018, o livro com cerca de 400 páginas é o resultado de quatro anos de pesquisa e laboratório, conforme declarou a escritora em entrevista exclusiva ao caderno Cultura do jornal AgroValor, em sua fazenda na zona rural do Paracuru, Ceará, onde ela se refugia nos finais de semana. Foi nesse clima campestre que Celma escreveu a maior parte da narrativa, que tem como cenários as cidades de Fortaleza, Rio e Paris.  

Como foi escrever o “O Segredo da Boneca Russa”?
Para mim foi um enorme desafio escrever “O Segredo da Boneca Russa”. Pela ousadia de juntar literatura e história, dois gêneros que lidam com técnicas diferentes. Um utiliza personagens fictícios, o outro personalidades reais. Um se vale apenas da imaginação do autor, o outro de fatos. Mas o meu objetivo sempre foi o de escrever ficção e não biografias. 

Escrever, então, é um ato de ousadia?
A ousadia é que eu quis oferecer mais que entretenimento para o leitor. Mais que literatura. Quis trazer informações sobre um tempo sombrio, ainda com muitas interrogações e muito a desvendar. Ousadia também porque eu não pertencia ao universo das duas personagens centrais. Suas experiências eram inéditas para mim. Foi incrível imaginar vidas completamente diferentes da minha. 

Qual a classificação do seu romance?
“O Segredo da Boneca Russa” está classificado como suspense, policial, porque a narrativa se passa em torno de um crime. Mas no fundo é uma história de amor e justiça. Não apenas do amor entre um homem e uma mulher, mas entre pessoas. Sou uma otimista incorrigível. Continuo acreditando que o amor é transformador. Sempre para o bem. Quando ouço a afirmativa de que todos somos maus na essência, mais me convenço do poder do amor, temos que lutar contra esse nosso lado destruidor. Esse é o meu motivo para viver. Que outro motivo para viver se não for amar? 

Como foi o processo de criação de “O Segredo...”?
Fazer “O Segredo da Boneca Russa” foi também um ato de muito sofrimento, pelas cenas fortes de tortura e desamor que descrevi. É meu primeiro romance e desde o lançamento tenho vivido situações incríveis: amigos que leram me perguntam se tem algo de autobiográfico; Teve uma pessoa que se chocou com os diálogos vulgares de alguns personagens. O trabalho do romancista é este: criamos personagens fictícios que precisam parecer reais, que falam obscenidades, que fornicam, que têm pensamentos vulgares, que matam, que amam, enfim, são humanos. Então, o romance trata de todos esses sentimentos humanos. A boa notícia é que o amor vence no final.

Fale um pouco sobre o seu processo criativo e sobre a narrativa do seu livro.
É difícil falar sobre o que escrevemos. A partir do momento que a obra se torna pública ela deixa de ser do autor, passa a ser coletiva. O que eu penso, toda a ação solitária de quatro longos anos pesquisando e escrevendo, tudo o que eu “impus” ao leitor, não me pertence mais, minha opinião não interessa mais, o leitor passa a ser o ator principal. Ele se submete à minha narrativa, mas depois ele reassume as rédeas. Ele vai se identificar, ou rejeitar, vai condenar ou vai ficar simplesmente indiferente.

O golpe civil-militar está completando 55 anos em 2019. O que a levou a contextualizar a narrativa de ficção com fatos históricos da ditadura militar brasileira?
A impunidade e a injustiça são temas que sempre me incomodaram. Fui educada no Brasil da ditadura com valores rígidos: Você erra, você é punido. Então, por que essa máxima não valia para militares torturadores? A justificativa era sempre a Lei da Anistia. Sei, mas os tais “subversivos” foram punidos: presos, torturados, julgados, condenados, assassinados... Assim como eu, muitas pessoas do meu círculo também desconheciam informações básicas sobre o período, em parte devido à censura imposta aos meios de comunicação.Eu, que não me lembro nada do dia do golpe (tinha apenas 7 anos), só fui me dar conta de que vivíamos um regime de exceção vários anos depois, quando ouvia comentários como o de um estrangeiro sobre o filme Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick. Perguntei onde ele havia assistido. Ele respondeu no cinema, no país dele. Fiquei surpresa. No Brasil, pouco se falava no filme. Estava censurado. O presidente era o General Médici. O filme só foi liberado aqui quando eu já tinha mais de 20 anos. E, mesmo liberado, as partes íntimas dos atores nas cenas de nudez eram cobertas por tarjas pretas. Na adolescência, a literatura de Jorge Amado foi banida das escolas, líamos escondido. Então, esse tipo de proibição, de censura, me incomodava muito. Éramos adultos tratados como crianças, seres incapazes de escolher ou discenir o que era melhor para si. É assim que se forma um país? Já os países vizinhos, que também estiveram sob ditaduras militares, agiram de outra forma. Tardiamente, mas passaram sua história a limpo. Quando o ditador chileno Pinochet foi preso em 1998, eu já tinha mais de 40 anos. E iniciou-se um debate mundial: Crimes contra a humanidade não prescrevem. Aquilo foi um marco. Mudou a visão de impunidade, de tortura...

E por que inseriu Paris na narrativa? Algum motivo especial?
Por que Paris? Por uma questão de paixão à primeira vista. Paixão pela cidade desde a primeira vez que a visitei, depois morei uma pequena temporada, nos anos noventa. Pelos valores revolucionários de liberté, égalité e fraternité. Por ter acolhido exilados brasileiros durante a ditadura. Uni tudo isso e criei Joëlle, uma historiadora francesa filha de uma brasileira que se autoexilou em Paris durante a ditadura militar. Joëlle vai narrar a saga da família materna envolvida em um crime hediondo que ficou oculto por quase cinquenta anos.Paris entra na história através dela. 

SINOPSE
“O Segredo da Boneca Russa” [Editora Sete, 2018]

A renomada biógrafa francesa Joëlle Dousseau, 45 anos, filha de uma brasileira que se autoexilou em Paris no período da ditadura militar do Brasil, desvenda em 2014 um crime hediondo que envolve sua mãe, à época uma criança de apenas sete anos. Para chegar ao autor do crime, Joëlle precisa encontrar a matrioska, um souvenir russo que simboliza a maternidade, e dissecar meio século de segredos, mentiras, ódio e intrigas. Em meio a revelações tenebrosas, Joëlle reencontra seu antigo amor da juventude, que pode fazê-la voltar a acreditar na humanidade. Uma narrativa cheia de suspense, onde as várias peças se encaixam com perfeição como uma boneca russa.

SERVIÇO
Livro: “O Segredo da Boneca Russa” [Editora Sete, 2018]

ONDE COMPRAR
Livraria Cultura (Fortaleza)
Shopping Varanda Mall
Av. Dom Luís, 1010 – Meireles

Livraria Leitura (Fortaleza)
Shopping Riomar e Shopping Del Paseo

Librairie Portugaise & Brésilienne (Paris)
19/21 Rue des Fossés Saint-Jacques
Quartier Latin

 

 

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