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Por Amélia Gonzalez 

Tenho tido alguma dificuldade para dizer, com especificidade, qual o tema que desenvolvo aqui nesse blog. Depois de mais de uma década estudando sustentabilidade, criei uma reação pouco positiva a essa palavra porque ela tem sido usada para muitos sentidos, nem sempre tão comprometidos com a causa como eu gostaria. Também não posso dizer que escrevo sobre meio ambiente. Dia desses, em conversa com amigos, um deles me disse achar absurdo que uma cidade como o Rio de Janeiro ainda não tenha um sistema de coleta e tratamento de lixo adequado. Concordei com ele. Mas disse  que julgo um abuso maior o fato de haver 763 favelas, com 22% da população morando em condições de nenhuma higiene, nenhum conforto, nenhuma assistência.

Se vamos cuidar do meio ambiente, se vamos cuidar do planeta, é preciso cuidar também, e prioritariamente, das pessoas que aqui vivem. Senão, para que serviriam tantos apuros ao verde?

A um só tempo, também os assuntos econômicos me dizem respeito se estou tentando refletir sobre uma nova ordem mundial. O desenvolvimento, que virou quase uma religião entre nós, anda deixando muitas pessoas pelo caminho e a doutrina do neoliberalismo, como já foi comprovado até pelo FMI  só fez, até agora, aumentar a desigualdade. Um fenômeno que gera o tipo de estranheza que me afeta quando penso que o caminhão de lixo reciclável que passa em minha rua pode acabar levando, inadvertidamente, a “cama” de papelão de alguns homens e mulheres que dormem nas marquises das lojas.

Sendo assim, de verdade o que me interessa é, como não poderia deixar de ser, as pessoas. Foi pensando nisso que busquei  inspiração para esse texto, que abre a Semana do Meio Ambiente. Tive a sorte de encontrar, no site do “London Review of Books" , publicado no dia 2 de junho, um artigo escrito por Naomi Klein, jornalista e ativista ambiental canadense que os leitores que seguem este blog certamente já me viram citar algumas vezes. A crítica de Klein ao sistema vigente é dura, tem sólidos patamares e conteúdos teóricos que não dão muito espaço para réplicas, a não ser de pessoas com pensamentos e ideologias antagônicas aos dela. Não é meu caso.

Naomi Klein também se questiona a respeito da primazia dos cuidados com a natureza sobre a urgente necessidade de se cuidar das pessoas e toca num ponto extremamente sensível em seu artigo: o quanto as Unidades de Conservação se transformaram em lugares de pouca utilidade para os humanos. Sua denúncia se baseia no fato concreto de que, sobretudo nas Américas, existem belos trechos de terras sendo convertidos em parques de conservação aos quais os indígenas e outros povos tradicionais têm acesso negado para caçar, pescar ou, simplesmente, viver.

“Isso está acontecendo com frequência. Do Brasil à Uganda, povos indígenas estão descobrindo que algumas das mais agressivas desapropriações de terras estão sendo feitas em nome da conservação da natureza, por organizações que se destinam a isso. De repente, uma floresta à qual eles tinham acesso passa a ser unidade de conservação e é colocada fora dos limites de seus habitantes tradicionais. Abusos “verdes” dos direitos humanos, com agricultores e povos indígenas sendo atacados fisicamente pelos guardas do parque ou da segurança privada quando tentam voltar às suas terras”, conta ela.

Naomi acredita que o mercado de carbono está ajudando a criar esta nova forma de colonialismo “verde”. Faz sentido. Pelas regras desse mercado, que surgiu durante a ECO-92 e foi se solidificando mais e mais com a assinatura do Protocolo de Quioto em 1997, os países mais ricos que estão emitindo mais carbono do que deveriam podem comprar carbono daqueles que não estão emitindo tanto, os mais pobres. Ocorre que nessa transação comercial as pessoas não são consideradas e podem mesmo ser empecilhos.

O mesmo tipo de negócio pode acontecer entre empresas, e aí tudo fica muito complicado. Um movimento forte de ambientalistas anda sacudindo, por exemplo, o parlamento sueco nos últimos dias, para tentar dissuadir o governo a não permitir a venda de ativos de carvão. Ocorre que a empresa de energia estatal está querendo passar seu negócio para uma empresa tcheca que não se importa em queimar tanto carvão quanto possível.  E o carvão em questão, o lenhite, é um dos mais poluentes.

Se o primeiro-ministro Stefan  Löfven decidir pela venda estará arruinando sua carreira política porque, no fim das contas, passará uma mensagem de que não se importa muito se a atmosfera global vai continuar sendo poluída pelo carvão. E Löfven se elegeu com um discurso pró-meio-ambiente e anti-poluição. Se, ao contrário, decidir não vender para reter o carvão no solo, estará tomando uma decisão sem precedentes até hoje entre os líderes mundiais.  Maio Boeve, diretor da ONG 350.org, fez um paralelo interessante para tentar explicar o que seria, para o meio ambiente, vender a empresa sueca de carvão para a República Tcheca:

“Se estivéssemos no tempo da escravidão, é mais ou menos como dizer que uma empresa de comércio venderia seus escravos para um senhor ainda mais brutal somente para limpar sua consciência. Ele não estaria, assim, contribuindo para acabar com a escravidão”, escreveu o ativista para um artigo publicado na quinta-feira (2) pelo jornal britânico “The Guardian” .

Entre os países, essa negociação se dá, muitas vezes, através do financiamento de projetos, inclusive para tratar o lixo, um emissor de gás poluente.  São projetos do Mecanismo do Desenvolvimento Limpo (MDL), uma expressão que surgiu também na época da ECO92 para definir melhor essa operação. Um projeto brasileiro, o do aterro sanitário Nova Gerar,  foi o primeiro registrado como MDL nas Nações Unidas. Através de uma parceria com a prefeitura, o lixão a céu aberto da Marambaia deu lugar a uma sofisticada e eficiente técnica para tratamento dos resíduos na cidade de Nova Iguaçu. 

Nova Iguaçu fica na Baixada Fluminense, região do Estado do Rio de Janeiro formada por 12 municípios, que abriga 22,5% da população do Estado, mas somente 14% do PIB. O município apresenta o coeficiente de Gini mais alto da região, ou seja, a maior desigualdade de renda. Esse projeto, de fato, melhorou bastante a vida na região, trouxe  um ar mais saudável, menos pessoas ficaram doentes.

Obviamente que não se está contra um programa tão eficaz quanto o da Nova Gerar. A reflexão possível é que é preciso pensar sempre  sob forma integrada, de maneira a não permitir que as vidas humanas recebam menos atenção do que o meio ambiente. É a difícil, mas inadiável, tarefa que as mudanças climáticas estão impondo à nossa civilização nesses tempos.
 

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