AgroValor Publicidade
Agro&cultura

por Camila Bitar*

Cresci ouvindo a história da minha família, da trajetória do meu bisavô imigrante e da viagem dos meus pais à sua pátria no Oriente Médio.

Ao contrário da maioria das pessoas com quem convivo, sempre que o assunto é Líbano, em vez de um país de conflitos, eu me remeto ao lugar do aconchego familiar, aos sabores e aromas inigualáveis, à sabedoria da convivência pacífica entre povos de diferentes religiões e filosofias.

Em 2005 fui apresentada pessoalmente à terra natal do meu bisa. Passei as férias de verão em Beirute, na casa de amigos, e visitei parentes na vizinha e adorável Beit- Chabab. Espere um pouco... Para a nossa cultura ocidental pode parecer ‘normal’ hospedar-se em casa de amigos e ‘visitar’ parentes. Devo esclarecer que Mirna e eu éramos como irmãs, havíamos dividido o mesmo quarto no colégio-internato na França no ano anterior. Com sua irmã mais nova, Mia, formávamos ‘o trio’ na bela capital libanesa. Curtíamos as mesmas coisas que jovens estudantes em férias curtem, não importa a procedência. Praia e clube à tarde, balada à noite, e de manhã, claro, dormíamos!

É, gente, a vida em Beirute é semelhante à das capitais europeias, livres dos tão temidos riscos que deixam pais brasileiros à beira de um ataque de nervos. Nada de sequestros relâmpagos, outros nem tão flash assim, assaltos à mão armada e mais os inúmeros perigos conhecidos por aqui.

Vale um parêntese. Sabe-se que, de vez em quando, rolam pequenos furtos que brasileiros adoram contar de que foram vítimas na Europa (“Tá vendo? Não é só no Brasil!”). Vejam que tremendo equívoco! Colocar pequenos furtos e assaltos à mão armada no mesmo balaio penal! Ambos condenáveis, claro, mas guardam uma enorme diferença tanto no ato quanto nas consequências. Os famosos “descuidistas”, como diriam meus pais, acrescentando em seguida “Bons tempos aqueles...”, é classe já extinta no Brasil há algumas décadas. Aqui eles ‘evoluíram’, se organizaram e transformaram a nossa rotina no terror que é hoje os grandes centros urbanos.

Conheci o Líbano em sua melhor fase pós-guerra civil, que havia durado dezesseis longos anos (1975-1990) e mais outro tanto para a reconstrução dos estragos. Belo país de economia próspera, em grande parte graças à potente administração de Rafik Hariri, o ex-primeiro-ministro morto em Beirute, em 2005, alguns meses antes da minha chegada.

Durante a minha permanência, ocorreu outro atentado numa das áreas mais turísticas da capital, felizmente sem vítimas fatais. Mesmo assim, as estatísticas atestavam que era bem mais seguro passar férias em Beirute do que no Rio ou São Paulo, difícil mesmo era convencer meus amigos daqui sobre esses comprovados dados.

“E você ainda diz que o Brasil é que é perigoso!?” Não tenho a pretensão aqui de traçar um paralelo sociopolítico entre os dois países, quero somente externar meus sentimentos.

Percebe-se claramente a índole pacífica do povo libanês. Preocupa-me a situação como um todo, as consequências econômicas, mas principalmente, as graves sequelas emocionais para nossos irmãos do Oriente Médio.

Brasileiros e libaneses guardam muitas afinidades, em particular o grande sentido de família, amizade, solidariedade e hospitalidade. Calcula-se que um em cada trinta brasileiros tenha ascendência libanesa, afinal somamos aproximadamente sete milhões no Brasil (ano 2010), quase o dobro da população total do Líbano (cerca de quatro milhões, em 2013).

Se antes já me sentia libanesa, por descendência, ao retornar ao Brasil passei a me sentir uma legítima representante desses dois povos. Mais que férias, aquela temporada representou para mim a incorporação do verdadeiro significado da palavra pátria, a transformação e aperfeiçoamento de ideias a respeito da aceitação e valorização das diferenças, um verdadeiro batismo.

*Artigo re-editado pela autora, publicado originalmente na Edição 06, agosto/2006.

*Jornalista e editora de mídias digitais do jornal AgroValor

comments powered by Disqus
 
INSTAGRAM
Rua Pinho Pessoa, 755, Fortaleza/CE
CEP 60.135-170
Central de Relacionamento
AgroValor (85) 3270.7650
Copyright © 2006-2014
WSete Design