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Por Branca Castro

Ao ler uma notícia no jornal sobre um crime ocorrido em Orós, meus pensamentos se voltaram para a pacata cidade onde morei até minha adolescência. Fiz uma volta
ao passado, mergulhando em pensamentos, e senti uma saudade enorme.

Naquela época, a delegacia vivia com as portas abertas e, quando alguém se excedia um pouco mais, logo um membro da família vinha pedir socorro ao meu pai, o industrial e político Eliseu Batista, o “seu Eliseu”, para soltá-lo. Um assassinato como o que aconteceu recentemente não me lembro de ter havido nada nem parecido.

Nasci em Jaguaribe porque, me parece, não havia, naquela época, hospital em Orós. Mas Orós, na região centro-sul do estado do Ceará, é a minha terra e continuo umbilicalmente presa à ela. Não só pela minha infância e adolescência, mas também por lembranças felizes que tenho de lá.

Ainda menina, recordo-me da agitação gerada pela perspectiva do arrombamento da parede do Açude Orós. E das visitas de presidentes da República, como Juscelino
Kubitschek e Jânio Quadros, pois, sendo um líder político, meu pai recebia costumeiramente nomes expressivos do cenário nacional e estadual.

Sou a caçula das mulheres e a penúltima de nove filhos. Minha infância foi vivida ao lado de dois irmãos homens. Um mais velho, e outro mais novo. Em consequência disso, minhas brincadeiras favoritas não eram com bonecas e, sim, nadar, esquiar no açude, jogar bola, andar a cavalo e, principalmente, os banhos na enorme piscina que iam até à noite. Foi uma infância bonita e que me deixou muitas lembranças agradáveis.

Tive professoras particulares em Orós, depois vim estudar em Fortaleza. Nas férias, retornava à cidade, levando sempre em dias maravilhosos em nossa ilha particular, batizada de “Ilha da Tranquilidade”. Nesse recanto paradisíaco praticávamos vários esportes no açude: esqui, vela, e até um paraquedas puxado por lancha. Um luxo nos anos 1960!

Orós era exemplo de cidade do interior, com o maior complexo industrial do Ceará. Nem os grandes grupos na compra de algodão “em rama” (em pluma) lhe superavam
em progresso. Além do beneficiamento de algodão, a usina da família produzia o óleo comestível da marca “Salutar”, com fama no Nordeste, os sabões em barra, “Caboclo” e “Eliba”, e margarina. Fabricava também, em grande escala, a torta de algodão, subproduto de alto valor protéico, para alimentar o rebanho da região.

Meu pai foi prefeito por duas vezes, sempre pensando no desenvolvimento da cidade, onde construiu hospital, escolas, clube, quadras esportivas, praças, aeroporto etc. O que mais me surpreendia nesse grande homem era sua enorme visão empresarial. Naquela época já possuía um avião, que lhe facilitava as idas e vindas a Fortaleza, a fim de resolver negócios.

Eliseu Batista foi talvez o maior pai do mundo, não só dos seus filhos legítimos, mas também dos adotivos, que foram seus operários e os pobres do seu Orós. “Orós é Eliseu Batista e Eliseu Batista é Orós. Um nasceu do outro ou para o outro”, dizia o ex-governador do Ceará, Virgílio Távora. Na sua vida dedicada ao algodão, nem a desgraça da praga do bicudo-do-algodoeiro, que varreu do mapa do Ceará e do Nordeste sua maior riqueza, abalou sua coragem e disposição. Trabalhou na mesma atividade até morrer, em 2001, aos 88 anos.

Minha mãe, dona Isaura, uma grande mulher, dedicada e organizada, comandava com determinação e rigor nossa casa. Os imensos jardins e quintais cheios de mangueiras, cajueiros, goiabeiras, coqueiros, uma infinidade de árvores frutíferas. Seu orgulho maior era o viveiro, com uma variedade enorme de pássaros: canários,
galos de campina, sabiás e, em especial, os periquitos australianos que ela adorava. Apesar de muito austera, era sensível, gostava de música, tocar violão, fazer flores
de papel, e não dispensava à noite seu joguinho de cartas com amigos da cidade. Com meu pai, comandavam uma grande e unida família!

A minha bela e próspera Orós, cidade tranquila e acolhedora que trago na memória e no coração, não combina, definitivamente, com violência. 

 

 

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