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“Já quase findando o século, de volta de sua educação europeia, Branca começava a frequentar com o pai as retretas que as bandas [...] ofereciam, aos domingos, no Passeio Público. Quem lembraria que ali, por onde passeavam as gentis senhorinhas da cidade, entre árvores, estátuas e fontes, ali, um dia, correra sangue? Sangue dos mártires. Sangue de nossa família, sangue do Padre Mororó, recordava o pai de Branca.”

As palavras acima transcritas pertencem às primeiras páginas de meu romance Luzes de Paris e o fogo de Canudos, sendo, portanto, ficcionais, mas trazem à tona minha benquerença pelo Passeio Público, local que me povoa a cabeça desde a infância, apesar de, quando criança, nunca lhe ter atravessado os portões.

De onde vem, então, sua presença tão marcante em minha imaginação? Primeiramente, das memórias de família. Desde que me entendo por gente sempre soube que o Baobá, árvore africana que aí reside, fora plantado pelo senador Pompeu, meu trisavô, e aclimatara-se em terreno povoado por castanholas e mongubeiras. Saber disso dava uma certa aura de mistério e grandeza à praça que via desolada, imensamente triste. Conhecia, também, por histórias contadas por meu avô, César Rossas, a alegria do Passeio Público, quando senhoras e senhoritas desfilavam seus vestidos e chapéus mais chics pela Avenida Caio Prado, ao som de bandas de música. Mas, a lembrança de família sobre o Passeio Público que mais me encantava e encanta é a que tem meu pai, Luciano Cavalcante Mota, como personagem. Nascido em casa defronte ao Passeio, papai fizera da praça-jardim seu quintal. Alegrava-me imaginá-lo tão criança como eu era e vivia como minhas as brincadeiras que o menino-papai vivera.

Além das memórias de família, de que apresentei brevíssimo recorte, a leitura de obras que habitavam a biblioteca de meu pai, como o romance A normalista, de Adolfo Caminha, escrito e publicado na contemporaneidade da época áurea da vida social do Passeio Público, em 1893, e de textos de cronistas, memorialistas e historiadores de Fortaleza, foi-me ensinando a importância estética, da graça e beleza dessa praça, e sua relevância como ponto de encontro dos habitantes da cidade e locus de fatos históricos. Na brevidade deste texto, saliento algumas informações sobre os antecedentes e os primeiros tempos do Passeio Público, colhidas, sobretudo, dos livros Fortaleza velha, de João Nogueira, e Coisas que o tempo levou, de Raimundo de Menezes.

João Nogueira relembra que, além do fuzilamento dos confederados, em 1825, o local onde depois foi criado o Passeio Público, fora palco de muitas mortes por enforcamento, de condenados da justiça, até 7 de abril de 1831, quando, animados com o Fico de Dom Pedro, habitantes da cidade puseram abaixo o patíbulo. Recorda, ainda, que outros acontecimentos históricos repercutiram, ou mesmo, nasceram no Passeio Público, que foi local de encontro de abolicionistas e republicanos.

Conta-nos Raimundo de Menezes que desde 1850, já havia referência, na Assembleia Provincial, a projeto do então presidente da Província para construção de um passeio público no local do Campo da Pólvora, chamado de ‘largo do paiol’, “como aformoseamento para o lugar, que, sendo ajardinado, se tornará um belo passeio público”. Depois de várias tentativas de efetuação do projeto, em 1864, é dada a notícia de que fora criado “passeio e jardim na praça entre o quartel público e o hospital de caridade”. A partir da ação do negociante Tito Antônio da Rocha, a praça que era de areia, foi pavimentada em 1879 e adornada com estátuas, repuxos, jarrões de louça chinesa, coreto de música... No ano de 1887, é noticiada a construção, no terceiro plano, de um tanque com estátua de Netuno sobre pilar de pedra e, no ano seguinte, a inauguração do primeiro plano do Passeio Público.

A partir das narrativas de ontem e das vivências de hoje, percebemos que, em nossos tempos, outras praças se erigem como espaço político da cidade e que o Passeio Público mantém sua vocação para o encontro cultural, a festa e o amor. Termino minhas palavras, convocando nossa adesão à nova vida de nossa bela praça-jardim - democrática, sem a silente divisão de espaços versus classes sociais vigente na belle époque; e lembrando o querido mestre Moreira Campos, em depoimento incluído no Roteiro Sentimental de Fortaleza, ao falar de seus ternos encontros com Dona Zezé: “namorávamos depois do expediente. Saíamos rodando pela cidade, pelo Passeio Público [...] rodávamos por ali, de mãos entrelaçadas”.

Angela Gutiérrez
Escritora e diretora
cultural da Academia
Cearense de Letras
(ACL)

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