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por Rogério Morais

Um coronel da Polícia Militar, comandante do Regimento de Cavalaria da PM do Rio de Janeiro, que faz questão de afirmar que os jovens estão chegando à instituição “com uma visão de mundo muito melhor do que a de 30 anos atrás”. Estão “antenados com as questões sociais e com as próprias questões políticas”, completa. O preparado Coronel Cristiano Luiz Gaspar, 50 anos, bacharel em Direito, com especialização em inteligência policial, direito administrativo e gestão na administração pública, não evita falar sobre temas polêmicos que envolvem, principalmente, a polícia do seu Estado. Nesta entrevista exclusiva ao AgroValor, em seu gabinete, ele considera que as polícias estão obtendo saldos positivos, principalmente no Rio de Janeiro.

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AgroValor – A segurança pública é a ‘bola da vez’ das grandes questões nacionais. Como o Sr. analisa esse tema e as mudanças?

Coronel Gaspar – A segurança pública teve uma grande evolução a partir da Constituição Federal de 1988. Até então era tratada como uma subcélula do gênero maior, que era a Segurança Nacional. Nós vivíamos, até por volta de 1985, um regime de exceção. A população não tinha participação nas grandes questões nacionais. A própria visão de políticas públicas, como educação, saúde e segurança, não estavam presentes. A partir de então, a segurança pública foi desvinculada do gênero segurança nacional. A segurança nacional era tratada só na questão da soberania e defesa da pátria, subordinada a conceitos doutrinários de um regime totalitário. Hoje, a segurança pública é tratada como um dos setores ou segmentos da sociedade com visão sociológica e antropológica.

AgroValor – As nossas polícias militares, nos Estados, nessa nova versão, estão evoluindo?

Coronel Gaspar – Veja bem, estamos vivendo uma discussão sobre militarização ou desmilitarização das polícias. Essa questão de militarização, de você ter uma polícia militar e civil nos Estados, é uma questão que acompanha a história do país desde o Império. Nasceu ainda no período de Dom João VI, no chamado Reino Unido. Passou por todas essas etapas e, com o advento da Proclamação da República, criou a estrutura federativa, repartição de competência entre União, Estados, Distrito Federal e, atualmente, até os municípios. Nós temos a estratificação da segurança pública em polícias federais, da União, que são a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal, as policias estaduais, Civil e Militar, e temos ainda, não como polícias, mas como sistema integrado da segurança, as Guardas Municipais. A questão de você ter uma polícia militar até certo momento funcionou. Como já disse, anteriormente, era uma questão histórica que prestou para o momento, mas atualmente ela é militar por outras necessidades. Como militar, ela tem a hierarquia e disciplina de instituições estaduais de grandes efetivos. Temos no estado do Rio de Janeiro mais de 50 mil policiais militares na ativa. São Paulo tem mais de 100mil.

AgroValor – Mas é possível concretizar, na prática, as mudanças?

Coronel Gaspar – Essa questão da disciplina e hierarquia não atrapalha de forma alguma os exercícios das políticas públicas de direitos humanos e de cidadania. O que deve acontecer aqui, e já está acontecendo, é uma humanização, não só das polícias militares, mas das outras instituições policiais. O que acontece com as polícias militares é porque elas têm mais efetivos, são ostensivas e usam uniforme. Mas a questão da humanização é uma necessidade e, hoje, já é uma prática que vem acontecendo também com as outras instituições policiais.

AgroValor – A PM do Rio de Janeiro é, hoje, um exemplo de operações, pela sua dimensão e as questões sociais que o estado, e todo o Brasil, apresentam. Qual a sua avaliação sobre essas mudanças?

Coronel Gaspar – Eu volto a dizer que a discussão sobre desmilitarização das polícias, para o exercício de cidadania, é uma questão totalmente subsidiária. Por que eu afirmo isso? Porque na natureza civil ou militar de uma instituição que vai torná-la maior ou menor, melhor ou pior prestadora de serviço na sociedade, independente de ser militar ou civil, é estar melhor preparada para atender as demandas sociais dentro daquilo que lhe compete o aparato estatal. Nós não podemos esperar de uma instituição policial que ela cumpra todas as obrigações do Estado.

AgroValor – O Sr. comanda uma unidade que é mais receptiva durante as operações. O que pode ser feito para que a população aceite melhor a polícia?

Coronel Gaspar – Os objetivos da política de segurança pública não dependem apenas das instituições policiais. Elas provêm do nível governamental. E qualquer governo, não somente no Brasil, mas no mundo inteiro, define o que é melhor para as respectivas sociedades. Isso, independentemente, de ideologia política e filosofia política partidária. Aqui no Rio de Janeiro, na área governamental, foram adotadas algumas metas e planos que estão dando certo. As polícias Militar e Civil estão possibilitando atuações para o poder público adentrar em alguns territórios que antes havia um problema de segurança maior.

AgroValor – Então o Sr. acredita que vivemos outro período e a PM ganha outra imagem.

Coronel Gaspar – A questão não é de período. A questão é de evolução. A Polícia Militar vem evoluindo desde o processo de democratização do país. Ela vem se readaptando ao cenário do estado democrático de direito. Não é abruptamente de um período para outro. É uma evolução.

AgroValor – E sobre a formação do policial, também vem evoluindo?

Coronel Gaspar – A formação policial, eu passo falar isso com uma certa desenvoltura porque eu também souda área de ensino da instituição. Sou, por natureza, um educador com atividade extra policial na área de educação. A formação não deve ser ortodoxa. Tem que sofrer um processo de autocrítica, autoanálise e implantação de processo evolutivo. Isso é necessário em qualquer parte do mundo. Se formos analisar a polícia de Londres, que pode usar até alguns métodos, alguns comportamentos, mas ela pode ser visível, como os “bobs londrinos” da passagem do século 19 para o século 20. No entanto, as técnicas não são as mesmas. Eles vêm se adaptando, entretanto, nas técnicas, são altamente modernos. Aqui, a nossa formação vem também passando por processo de evolução, é uma necessidade dos tempos. Readequação da grade curricular policial em todos os aspectos.

AgroValor – O Sr. poderia tecer comentários sobre o futuro das operações militares no Brasil, principalmente nas grandes capitais?

Coronel Gaspar – Isso depende muito de cada cenário. A Polícia Militar do Rio de Janeiro detém, na sua estrutura, uma unidade aeromóvel, policiamento com cães, duas unidades de elite de conceito internacional, que é o Batalhão de Operações Especiais (BOPE) e o Batalhão de Polícia de Choque. Temos também a Unidade Especial de PM Montada e as nossas unidades nos bairros, nas comunidades, onde está o grosso do nosso efetivo. São jovens policiais alocados nos batalhões, nas atividades de polícias
pacificadoras. Essa marca jovem está trazendo vibração e ela tem um perfil sociocultural muito diferente da minha época de ingresso. Hoje, os nossos jovens policiais têm uma visão de mundo muito melhor do que a visão de 30 anos atrás. Estão mais antenados com as questões sociais e com as próprias questões políticas. Estamos discutindo as questões políticas até de forma acadêmica.

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PERFIL

QUEM É
Coronel Cristiano Luiz Gaspar, 50 anos, da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Bacharel em Direito.

O QUE FAZ
Comanda o Regimento de Polícia Montada do Rio de Janeiro (RPMont) e ensina na Faculdade de Direito da Universidade Estácio.

O QUE FEZ
Comandou a Academia de Praças e Oficiais da Polícia Militar do RJ.

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Foto: Fernando Rodrigues

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