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por Rogério Morais

Enquanto os perímetros irrigados do Dnocs (Departamento Nacional de Obras Contras as Secas) temem racionamento de água, devido à estiagem prolongada, o governo do Estado do Ceará abandona valioso equipamento que poderia contribuir para minimizar os efeitos da seca. Uma aeronave do Instituto de Estudos, Pesquisas e Projetos (Iepro), da Universidade Estadual do Ceará (Uece), sem uso prático há vários anos, encontra-se estacionada no pátio da Ciopaer (Coordenadoria Integrada de Operações Aéreas), órgão ligado à Secretaria da Segurança do Estado. Até recentemente o avião esteve parado na Base Aérea de Fortaleza (BAFZ).

Quem confirma – e lamenta – a inoperância da aeronave é João Linhares, seu comandante há mais doze anos. “O equipamento encontra-se parado por falta da IAM (Inspeção Anual de Manutenção), de caráter obrigatório. A única atividade, no momento, consiste na partida dos motores, que é por mim realizada a cada quinze dias, por exigência da Anac [Agência Nacional de Aviação Civil] para a preservação das turbinas”.

A aeronave, modelo Bandeirante, recebeu, há pouco tempo, investimentos da ordem de R$ 1,5 milhão da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), empresa pública vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), para se tornar o único equipamento da Região Nordeste em condições de estudar as mudanças climáticas e operar na modificação artificial do tempo. Ou seja, poderia estar sendo utilizada nas pesquisas meteorológicas, para provocar chuvas em áreas da fruticultura, por exemplo, e até para o abastecimento humano.

O presidente da Associação Comercial do Ceará (ACC), empresário João Guimarães, está empenhado pessoalmente – com o apoio de técnicos e estudiosos no assunto – para que o Estado retome as pesquisas e serviços de operação de modificação artificial do tempo. Ressalta Guimarães que, em todo o mundo, esse tipo de estudo é prioridade de governos, como na China e Estados Unidos. Ele fundamenta a reivindicação da entidade, citando os graves prejuízos à economia do Estado, após três anos consecutivos de seca. Guimarães informa ao AgroValor, por exemplo, que o projeto Curu-Paraipaba, com oito mil hectares irrigados no município cearense de Paraipaba, sob a administração do Dnocs, está ameaçado de ter sua água cortada.

Mas a luta da entidade classista cearense não se resume ao resgate da aeronave. Seus integrantes reivindicam também a implantação no Nordeste, através do Dnocs, de uma atividade semelhante ao Projeto Modart (Modificação Artificial do Tempo), desenvolvido pelo CTA (Centro Técnico Aeroespacial), órgão ligado ao Comando da Aeronáutica, e que passou a ser chamado de Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA).

Conforme o estudioso em aviação e empresário James Clark Nunes, que comercializa aeronaves, “houve época em que o Ceará era referência nacional” em estudos das nuvens e obtenção de chuvas. Segundo Nunes, “na década de 1980, tudo indicava que o avião haveria de ser um valioso instrumento para vencer a guerra das secas”. De fato, Guimarães declara que o avião estacionado no pátio da Ciopaer é uma das duas aeronaves da antiga Funceme (Fundação Cearense de Meteorologia e Chuvas Artificiais, atual Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos), e que, no ano 2000, foi para o centro de pesquisa da universidade pública estadual para desenvolver estudos do clima.

De acordo com Guimarães, as autoridades brasileiras “não estão interessadas” no assunto. Ele se mostra revoltado com o descaso do governo, que não dá encaminhamento às propostas da entidade. Recentemente, teve um encontro com o ministro da Fazenda, Guido Mantega, mas o interesse do chefe da pasta fazendária, que prometeu encaminhar ao governo, não passou da conversa, reclama Guimarães. Seriam necessários mais R$ 850 mil para dois meses de operação do aparelho.

A velha indústria da seca “continua forte”, intui o dirigente da associação de classe do Ceará, pois o programa de carros-pipa, que já consumiu R$ 1 bilhão, interessa “a muita gente”. E já foi motivo de processo de investigação do TCU (Tribunal de Contas da União), em 2012, para apurar diversas irregularidades, tendo sido, no entanto, arquivado. Segundo dados do Exército no processo do TCU, em dezembro de 2012, 782 municípios estavam incluídos na operação, atendendo a 760 mil famílias.

Entenda o caso
Avião da Universidade Estadual do Ceará (Uece), com equipamento que poderia contribuir para minimizar os efeitos da seca, está inoperante há vários anos. A aeronave recebeu investimento de R$ 1,5 milhão da Finep, para financiamento de semeadura de nuvem. Seriam necessários mais R$ 850 mil para dois meses de operação do aparelho. Ceará é pioneiro e operou, com a Funceme, na década de 1980.

Foto: Divulgação

 

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