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por Rogério Morais

Um dos executivos de mercado mais em evidência no Brasil. Por muito tempo foi o responsável pelas estratégias de TI do Serasa e até bem pouco respondia pela vice-presidência-executiva de Desenvolvimento de Marketing da Experian, nos Estados Unidos. O Presidente e CEO da Boa Vista Serviços, Dorival Dourado, 55 anos, nessa entrevista ao AgroValor, diz que “há, de fato, um pessimismo quanto à situação atual da economia” brasileira. Segundo ele, “refletida nos índice de confiança, tanto para o consumidor, quanto para os índices de perspectiva das empresas”. Mas crê “que o ciclo de aperto encerrou-se”, e aponta, por outro lado, que na política fiscal inevitavelmente, em 2015, deveremos sofrer algum tipo de ajuste”. 

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AgroValorO sr. vê, no momento (julho), tendência de um mercado de crédito ruim no exercício de 2014?

Dorival Dourado – Apesar da piora de algumas variáveis econômicas, o mercado de crédito tem boas notícias, como, por exemplo, a redução do patamar da inadimplência. O maior rigor dos concedentes e a menor demanda dos consumidores por crédito, observada recentemente, no entanto, deverá reduzir o ritmo de crescimento do crédito, encerrando o ano por volta de 12% de crescimento para o saldo total de crédito.

AgroValor Por que tanta polêmica em torno do Cadastro Positivo?

Dourado – O Cadastro Positivo não é hoje alvo de polêmica, mas suscita certa ansiedade, expectativa e também requer, ainda, por grande parte dos consumidores, melhor entendimento. E vejo esse cenário com certa naturalidade, considerando que o Cadastro Positivo representa uma mudança cultural muito significativa, que, entre outras coisas, coloca o consumidor no polo ativo em relação ao crédito. Em outras palavras: quando o fornecedor de crédito olha apenas a informação de inadimplência para decidir se vende a crédito ou não, e em que prazo, o consumidor não é agente nesse processo. Na forma como o Cadastro Positivo foi regulamentado no Brasil, o consumidor é quem autoriza se quer ou não compartilhar o seu histórico de pagamentos realizados. Ele passa a ser o polo ativo dessas informações. Trata-se de uma mudança de paradigma.

AgroValorMudou alguma coisa no crédito no Brasil com a adoção desse registro?

Dourado – Essa pergunta me dá a deixa pra complementar a anterior: se não vejo polêmica em torno do Cadastro Positivo, também não formamos ainda uma massa de dados suficiente para mudar o cenário de decisão de crédito. E isso é reflexo do ritmo lento de adesões por parte dos consumidores. Então, respondendo objetivamente, ainda não temos mudanças no cenário de crédito no Brasil em decorrência do Cadastro Positivo.

AgroValor A oferta de crédito ainda pode sofrer modificação, seja no crédito para o consumo, setor imobiliário ou consignado?

Dourado – O crédito para consumo, recursos livres, preponderantemente, sofreu um forte arrefecimento ao longo de 2013 e 2014, chegando a apenas 5,6% de crescimento para o saldo em maio de 2014, última aferição do BC. Ou seja, praticamente um crescimento nulo em termos reais. O crédito consignado, apesar de ter praticamente o dobro do crescimento do estoque, também passa por desaceleração. Até mesmo para os recursos direcionados existe uma desaceleração. Contudo, essa desaceleração é muito tímida, com o saldo passando de 27,3%, em agosto de 2013 (pico mais recente), para 23,2%, em maio de 2014. O crédito imobiliário, em específico, também desacelera, mas cresce acima de 30% nos recursos para PF. É uma das principais categorias de crédito para os direcionados.

AgroValor As pesquisas da Boa Vista apontam para um novo tipo de consumidor mais responsável e consciente com tomada de crédito?

Dourado – A Boa Vista realizou uma pesquisa sobre o perfil do consumidor, entre os dias 10 de fevereiro a 5 de março de 2014. A intenção do levantamento foi conhecer a percepção do consumidor acerca de questões relacionadas a crédito e consumo. Procurou-se fazer um levantamento de estratificação por classe social, utilizando o critério FGV 2012 (de faixas de renda). A amostra obtida foi de 967 respondentes, dos quais 44% representam a classe C e 50% as classes D/E. Em linhas gerais, a pesquisa mostrou um amadurecimento do consumidor, cada vez mais protagonista de sua vida financeira, algo muito saudável em relação ao uso do crédito e ao consumo. Fatores como mais acesso à informação, intensificação de ações de educação financeira por parte de agentes do mercado, mais oportunidades de planejamento e de controle favoreceram esta evolução observada nos últimos anos.

AgroValorNa opinião do senhor, o quadro econômico e financeiro brasileiro necessita de ajuste mais forte?

Dourado – Há, de fato, um pessimismo quanto à situação atual da economia, refletida nos índice de confiança, tanto para o consumidor, quanto para os índices de perspectiva das empresas. Em relação à política monetária, cremos que o ciclo de aperto encerrou-se e a autoridade monetária espera ainda efeitos defasados do ciclo para poder voltar a agir, isto é, decidir se aumenta novamente os juros ou os mantêm neste patamar. Quanto à política fiscal, inevitavelmente em 2015 deveremos sofrer algum tipo de ajuste, ou, pelo menos, maior sinalização das políticas tomadas pelo governo.

AgroValor O governo deveria adotar que tipo de medidas para manter o crescimento do país, o consumo em alta das classes “C” e “D”, e a inadimplência em níveis normais?

Dourado – O governo já vem explorando diversas modalidades de fomento ao crédito. São medidas que no curto prazo tendem a beneficiar o consumo, mas que precisam ser pensadas também a longo prazo. Contudo, o setor ainda possui um grande mercado inexplorado e o mercado de trabalho apertado favorece um crescimento por esse lado.

AgroValor Dados indicam que as empresas brasileiras estão deixando mais contas sem pagar nos últimos meses. Qual o motivo?

Dourado – O que pode haver é aumento de inadimplência em algumas categorias específicas, mas que somadas às demais modalidades ficam mitigadas. Há também uma exploração de outras categorias por parte dos concedentes de crédito, que abaixam a média inadimplente. Nos últimos seis meses houve estabilidade dos indicadores gerais de inadimplência para as empresas, enquanto nos últimos 12 meses diminuiu de fato.

AgroValor O crédito oficial dos Planos Agrícolas do governo é satisfatório neste momento no agronegócio brasileiro?

Dourado – Parece que sim. A modalidade de crédito rural em recursos direcionados é a única modalidade que apresenta crescimento, sustentando nos últimos meses com expansão superior a 30% do saldo de crédito (tanto para PF quanto para PJ que no caso atinge 40%), e inadimplência abaixo de 2%, algo muito positivo.

AgroValor A participação dos bancos privados do setor pode ser ampliada?

Dourado – Os bancos privados aparentam ainda estar diminuindo o ritmo da concessão de crédito, muitos em função da elevação da taxa de juros, a Selic e o aumento da aversão ao risco devido às perdas geradas pela inadimplência em anos anteriores. No crédito rural, esta tendência também se mantém. Portanto, assim que os efeitos defasados de restrição monetária se concretizarem, a tendência é que os agentes privados retornem a conceder crédito com maior ênfase e menor risco.

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PERFIL

QUEM É
Dorival Dourado, 55, paulistano, administrador de empresa, Presidente e CEO da Boa Vista Serviços.

O QUE FAZ
Comanda a maior empresa de análises de crédito da América latina.

O QUE FEZ
Ingressou no Serasa em 2004. Foi o primeiro executivo da subsidiária brasileira a ocupar um cargo de destaque global no grupo Experian.

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Fotos: Divulgação

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