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AgroValor

Por Angelo Tomasini

No último mês, a Agrícola Famosa completou vinte anos. O nome não veio por acaso, afinal, a empresa localizada entre Icapuí (70%), no Ceará, e Mossoró (30%), no Rio Grande do Norte, ganhou fama internacional por ser a maior produtora de frutas frescas do Brasil e a maior produtora de melão do mundo. A diversificação transformou o negócio em uma holding que viu o faturamento saltar de R$ 250 milhões, em 2012, para R$ 400 milhões, no ano passado. A produção é dividida em 45% para o mercado interno e 55% para exportação. Todo esse sucesso deve-se ao trabalho de dois paulistas, o advogado Luiz Roberto Barcelos, 50, e seu sócio, Carlos Porro. O AgroValor conversou, por telefone, com Barcelos, no intervalo de uma de suas viagens de negócios. No cargo de presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Frutas do Brasil, o empresário falou sobre a Famosa, o mercado e os principais entraves do setor.

AgroValor – Quais os ramos de atuação da Agrícola Famosa?
Luiz Barcelos  Basicamente a produção está focada em melão e melancia, mas também produz mamão, banana, aspargos, maracujá e está iniciando com o abacaxi. Para aproveitar a cadeia produtiva, temos gado alimentado com os restos da cultura do melão, e tilápia, aproveitando a água do poço. Temos também produção de mudas por meristema [em laboratório], que é a bioclone e a topplant [comércio de mudas]. Quanto à energia eólica, só arrendamos o terreno, não investimos na produção.

AgroValor  Como utilizar tecnologia em um país onde as pesquisas são pouco incentivadas?
Barcelos  Temos que buscar, muitas vezes, fora e adaptar à nossa realidade. Todo ano a equipe – de produção ou de pós-colheita – vai buscar tecnologia onde ela é mais desenvolvida, como nos EUA (Califórnia e Texas), Espanha e Israel. Infelizmente o Brasil não é um país com cultura tecnológica, principalmente na agricultura irrigada.

AgroValor  E quanto à mão de obra?
Barcelos – Temos 6,5 mil funcionários por safra. Se continuarmos no atual crescimento, devemos chegar a dez mil nos próximos quatro anos. Mão de obra é relativamente fácil em termos de volume, mas muito difícil em termos de qualidade, de capacitação. Temos muita mão de obra desqualificada e isso acaba atrapalhando. Para dificultar ainda mais, há os programas sociais que acabam competindo conosco e desestimulando a geração de emprego. Esse é um problema crítico. Por mais que se busque a mecanização, sempre precisaremos da mão de obra qualificada.

AgroValor  Como é a receptividade dos países árabes e quais outros mercados tem em vista?
Barcelos O Oriente Médio é um mercado bastante interessante. Ainda estamos com um volume pequeno, mas é uma região onde o clima ajuda no consumo de frutas. As pessoas têm alto poder aquisitivo e não produzem. Conseguimos atingir esses países com uma qualidade boa de travel time (tempo de viagem).  Outro país que estamos tentando alcançar é os EUA, que sobretaxa o melão brasileiro [28%] para proteger o da América Central. Isso praticamente tira a nossa competitividade. Estamos trabalhando junto aos governos brasileiro e americano para resolver esse problema tarifário. Somos a única área do Brasil com reconhecimento de livre da mosca da fruta. Além disso, temos uma boa logística. Semanalmente, um navio sai do porto do Pecém [CE] para Nova York, em apenas oito dias de viagem. A médio e longo prazos pretendemos atingir a Ásia (China e Japão), principalmente quando ficar pronta a expansão do Canal do Panamá. As rotas para a Ásia (do porto de Santos) vão ter que passar pelo Nordeste para atravessar o Canal, o que vai proporcionar um frete mais barato e mais rápido.

AgroValor – Como a seca tem afetado a produção?
Barcelos  Em Fortaleza choveu um pouco mais, mas na nossa área as chuvas ainda estão abaixo da média e os açudes do estado ainda não recuperaram o volume de água, principalmente o Castanhão e o Banabuiú.  Os aquíferos subterrâneos que utilizamos, na Chapada do Apodi, ainda não se recuperaram. Como estamos expandindo áreas e precisando de mais água, estamos nos deslocando para Parnaíba [PI], onde esperamos encontrar melhores condições de água.

AgroValor – Há apoio do poder público nesse sentido?
Barcelos – Nenhum. O apoio seria a melhoria da infraestrutura hídrica do estado. Estamos pedindo a duplicação do sifão no canal do Eixão [Eixão das Águas], para trazer mais água do Castanhão. Temos uma situação bastante crítica no Tabuleiro de Russas [perímetro irrigado]. Vamos ter que parar a produção de melão porque não tem água.

AgroValor – As recentes denúncias de corrupção no país e os escândalos na Petrobras dificultam as negociações externas?
Barcelos  Na exportação, não, mas acaba respingando na imagem do Brasil. Conversando com pessoas de outros países, sentimos que a imagem do país está muito denegrida, arranhada, em baixa, mas isso não chega a afetar na negociação de frutas.

AgroValor  Como vocês desenvolvem as práticas de produção sustentável?
Barcelos  Temos a certificação internacional de Boas Práticas Agrícolas Global – GAP [Good Agricultural Practices]. Isso envolve meio ambiente, segurança alimentar e responsabilidade social, ou seja, uma produção sustentável. Temos licenças ambientais, outorga de água e preocupação com os resíduos agroquímicos na produção. Esse é um problema, pois os nossos agroquímicos, em sua maioria, não têm registro para frutas. Eles só registram para grandes culturas, como soja, milho, algodão e açúcar. Esta é uma briga que estamos tendo para o governo normatizar, melhorar e modernizar a legislação para que possamos ter acesso aos defensivos com registro. Cuidamos para não haver nenhum tipo de contaminação no ambiente de embalagem da fruta, nos alojamentos e refeitórios. Temos médicos e dentistas na fazenda. Além disso, participamos de eventos culturais e esportivos para poder dar sustentabilidade à atividade.

AgroValor – O transporte das frutas é feito de forma satisfatória?
Barcelos  Temos dois tipos de transporte. O que vai para os portos (Pecém, Mucuripe e Natal), para exportações; as estradas das propriedades produtoras da região a esses portos, de um modo geral, estão boas, não temos tido grandes problemas. Tivemos alguns problemas no Pecém, já solucionados, quando o terminal passou a receber outro tipo de mercadoria (quando começou a termelétrica e a siderúrgica), mas os dirigentes entenderam que a fruta precisa de tratamento especial por ser perecível. O problema maior é no transporte para outros estados da federação, quando a fruta sai do Ceará e vai até o Rio Grande do Sul, devido ao estado das estradas brasileiras, o que pode acabar atrasando a entrega ou afetar a qualidade. Mas, de um modo geral, as rodovias por onde transitamos estão em boas condições, com exceção de algumas do Mato Grosso. A fruta sofre menos para chegar na Europa do que para chegar em São Paulo.

AgroValor – O sr. é presidente da Associação Brasileira dos Exportadores de Frutas. Quais as lutas da categoria?
Barcelos  Temos trabalhado muito em três pontos. A abertura de novos mercados para a fruta brasileira, uma melhor atenção do governo na parte da defesa vegetal do país e o registro dos defensivos das culturas pequenas. Combater a entrada de novas pragas, para que não tenhamos mais problemas além das existentes, que estão fazendo uma série de estragos. Assim vamos poder produzir mais e gerar mais emprego, que é a grande vantagem da fruticultura irrigada do semiárido brasileiro. Ressalte-se que essa é a sua grande importância socioeconômica. Entendemos que é um dos principais veículos de transformação e de desenvolvimento da região semiárida brasileira. Uma das poucas atividades que tem grande capacidade de gerar emprego sustentável.

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PERFIL

QUEM É
Luiz Roberto Barcelos, 50, advogado e empresário, natural de São Paulo, com título de cidadão cearense concedido pela Assembleia Legislativa do estado, no ano passado.

O QUE FAZ
Diretor institucional da Agrícola Famosa e presidente da Associação Brasileira de Exportadores de Frutas.

O QUE FEZ
Criou junto com um sócio a Agrícola Famosa, com sede em Icapuí (CE), maior exportadora de frutas frescas do Brasil e a maior produtora de melão do mundo.

Foto: Arquivo pessoal
 

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