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por Rogério Morais

Para ele, o problema atual de abastecimento de água na cidade de São Paulo é consequência de erros históricos de dezenas de anos passados. Mostra que o Nordeste, hoje, pode ser um referencial para os paulistas, e critica a ineficiência da academia naquele Estado, que não consegue contribuir para soluções básicas que já são adotadas na Europa. Hypérides Pereira Macedo, 71 anos, engenheiro civil, pós-graduado pela Universidade de São Paulo (USP), é considerado uma das maiores autoridades no assunto, sendo consultado por governos de vários estados do Brasil. Nesta entrevista exclusiva ao AgroValor ainda levanta dúvidas quanto ao grau de responsabilidade do homem na questão do aquecimento global, o que não elimina, segundo ele, a responsabilidade de todos para a preservação do meio ambiente.

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AgroValor – A questão do aquecimento global, atualmente, no mundo, é mesmo um problema desesperador para a humanidade?

Hypérides Macedo – Eu tenho minhas dúvidas sobre essa questão do aquecimento global. O mundo já sofreu períodos de resfriamento e períodos de aquecimento. Isso está provado na época pré-histórica. É preciso, no entanto, lembrar que, mesmo quando o homem não convivia com a fumaça, emitindo carbono, a terra já tinha deserto. Para mim, isso é um ciclo do planeta. A influência do homem sobre o planeta ainda não tem medida que possa avaliar essa dimensão. Entretanto, não podemos deixar de defender a preservação do meio ambiente.

AgroValor – Como o sr. analisa a falta de cuidado para com a água para a sobrevivência do ser humano?

Macedo – Esse é, sim, o maior problema do mundo. Quem vem tratando isso com melhor cuidado e responsabilidade é a Europa, mais precisamente a Europa Ocidental. A mesma coisa eu não posso dizer dos americanos e nem dos chineses, mas pelo menos já sabemos que a China, há muito tempo, vem fazendo modificações na bacia do rio Amarelo, estabelecendo normas de padrões siderúrgicos com menos efeitos poluidores, aumentando, visivelmente, a produção de geradores eólicos e também a geração de células fotoelétricas solares.

AgroValor – Em termos globais, hoje o maior problema é a qualidade ou a quantidade de água para o consumo?

Macedo – O grande gargalo é a qualidade da água. A disponibilidade tem sido um obstáculo naqueles países onde o índice per capita de quantidade de água é pequeno. Mas existem países que têm usado a dessalinização da água do mar. Quer dizer, eles têm encontrado soluções alternativas que forneçam água para o consumo. Portanto, não há nenhuma civilização, hoje, no planeta, que esteja limitada por questão de quantidade de água, mas, por questões de qualidade, sim. A África tem problemas graves de qualidade, sobretudo por causa das doenças veiculadas pela água. Quer dizer, a falta de cuidado com o esgotamento sanitário, com os dejetos industriais e animais naquele continente têm criado problemas muito graves à saúde pública.

AgroValor – Já que o sr. citou a dessalinização, discorra sobre as regiões semiáridas, como o Nordeste brasileiro.

Macedo – Nas cidades do litoral cearense, como Pecém e Aracati, por exemplo, já se pode pensar, daqui a alguns anos, na competição econômica e financeira da dessalinização da água do mar com a bacia continental. Um abastecimento vindo do continente, descendo para o mar, tem menor custo de energia e a água é muito mais barata. A água do Castanhão [açude] quando chega a Fortaleza é muito mais barata, mas complexos industriais que têm grande poder aquisitivo, como refinarias, siderúrgicas, termoelétricas e outras grandes indústrias, podem usar a água do mar porque o nível da maré com o das indústrias está mais ou menos próximo.

AgroValor – Como o Brasil se coloca nessa questão de tratamento de água?

Macedo – O Brasil não tem tradição de tratamento de água. Veja que uma cidade como São Paulo, que tem uma companhia de saneamento tradicional, ligada a uma das grandes instituições acadêmicas da América Latina, que é a USP (Universidade de São Paulo), e outras universidades como a Unicamp (Universidade de Campinas), agora é que está pensando em reutilizar a água oriunda do tratamento de esgoto. Estamos muito atrasados em relação à Europa. São Paulo ainda não se convenceu de que, como uma grande cidade do mundo, e de um país emergente, está devendo à sociedade soluções mais positivas.

AgroValor – O que realmente aconteceu em São Paulo?

Macedo – Afora os problemas citados, o principal dessa crise atual foi uma situação de afluência de chuvas na bacia do Cantareira e do Piracicaba. São vários sistemas, um deles é o rio Atibaia, que contribui para o Cantareira e que, ao longo das observações pluviométricas de oitenta anos, ninguém nunca pensou que ia haver uma estiagem como essa. Por outro lado, o Nordeste tem uma experiência muito maior do que os paulistas em matéria de hidrologia. E eu vou explicar o porquê. Em 1932, o Brasil não conhecia hidrologia. Hidrologia não é hidráulica, é a ciência do planejamento hídrico. Então, o Nordeste, através do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) – que hoje é o mais criticado dos órgãos, mas naquele tempo era a mais avançada instituição em matéria de hidráulica que o Brasil tinha –, fez a primeira obra hidrológica do Brasil na bacia do rio Quixeramobim, no Ceará, e na bacia do rio Piancó, na Paraíba. São Paulo só veio fazer isso nos anos 1950. Nós, como nordestinos, não podemos nos subordinar à hidrologia da USP, pois nós temos conhecimento muito mais avançado nessa questão e podemos enfrentar os nossos problemas.

AgroValor – O modelo atual aplicado no Nordeste de combater os efeitos das irregularidades de chuvas é perfeito?

Macedo – Esse modelo atual de integração de bacias que o Nordeste começou – e aqui faço um destaque, que a primeira integração de bacias do Brasil foi feita em 1956, no Orós, e na década de 1950, o Dnocs fez um túnel de 11 quilômetros ligando a bacia do rio Jaguaribe ao Salgado –, demonstra que a região passou na frente de todo mundo, não só em irrigação, pois o Nordeste é também pioneiro em irrigação, apesar de muita gente acreditar que seja o Rio Grande do Sul. Porém, a irrigação no RS é aquela de inundação de arroz, banhado, que é a mesma coisa que Nabucodonosor fazia na Mesopotâmia. Quem começou a irrigação moderna tecnificada foi o Nordeste, no início dos anos 1930, com tecnologia americana, e depois nos anos 1960, com tecnologia da Europa. Israel, inclusive, veio conhecer o sistema do Ceará e pegou o seu primeiro modelo no Vale do Curu (CE).

AgroValor – Mas o Nordeste ainda depende da conclusão das obras de transferência de águas do rio São Francisco.

Macedo – Nosso sistema de integração interna, que o Ceará é pioneiro, é o primeiro estado do Nordeste a preparar o sistema receptor, quer dizer, o sistema que vai receber água do São Francisco. Chegando a água do São Francisco no rio Jaguaribe (Ceará), a água já vai para o Pecém, porque o Estado já está preparado para isso. Então, podemos dizer que a nossa região será a primeira do Brasil a receber água da Amazônia, pois estamos bem próximos do rio Tocantins.

AgroValor – O sr. considera esse projeto (Tocantins) tecnicamente viável?

Macedo – A integração do Tocantins a partir da cidade de Carolina (MA) – porque as outras integrações do Tocantins com o São Francisco são inviáveis, não têm volume e nem têm viabilidade energética –, passando pela região da soja, não só transforma o Maranhão, pois se aproxima da bacia do rio Itapecuru (MA), que é a única bacia semiárida do Estado, que fornece água para o complexo de São Luís, como viabiliza o começo da transposição. Porque tem São Luís para justificar, assim como todos sabemos que foi Fortaleza que justificou a transposição das águas do rio São Francisco para o Nordeste.

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PERFIL

QUEM É
Hypérides Pereira Macedo, 71, cearense de Ubajara, engenheiro e professor.

O QUE FAZ
Consultoria empresarial, projetos e palestras para empresários e estudantes.

O QUE FEZ
Secretário durante dez anos no Estado do Ceará e Secretário de Infraestrutura no Ministério da Integração Nacional, no governo Lula.

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Foto: Divulgação

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