AgroValor Publicidade
AgroValor

por Rogério Morais

O economista e consultor de logística da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Luiz Antônio Fayet, acha que o maior problema do Brasil, hoje, é a ineficiência na logística. Chega a dizer que o país é incompetente na área de portos e não consegue resolver o problema da navegação de cabotagem. Nessa entrevista exclusiva ao AgroValor, em Fortaleza (CE), o ex-deputado federal e ex-presidente do Banco do Brasil, chama a atenção sobre a nova geografia de produção brasileira, e diz que “é preciso repensar a intervenção governamental” nos negócios.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

AgroValor – Qual o modal que mais entrava a logística no Brasil?

Luiz Antônio Fayet – A parte pior do Brasil é a questão portuária. Nós tivemos vários atrasos durante esses últimos anos. A geografia de produção do país mudou, pois o agronegócio existia fortemente praticamente no Sul, e foi subindo. Hoje ele está no Nordeste, no Norte, no Centro-Oeste. E a infraestrutura não acompanhou. O estado do Mato Grosso, por exemplo, tem que mandar a soja ou o milho para serem exportados pelos portos de Santos (SP) e Paranaguá (PR). Isso é um verdadeiro ralo, um prejuízo muito grande para a economia brasileira. Nós estamos gastando 70 dólares por tonelada. Isso significa mais ou menos 150 reais a mais, por tonelada, para exportar.

AgroValor – Além da exportação, temos também a questão da distribuição interna para atender o mercado nas diversas regiões. A CNA está preocupada com essa área?

Fayet – Essa pergunta é muito importante. Nós não estamos pensando somente na exportação, estamos também pensando nos custos internos. Da mesma maneira que estamos preocupados com os portos e os chamados corredores terrestres que chegam aos portos para resolver os problemas das exportações – grande fonte de renda e de riqueza econômica da população brasileira –, nós também estamos vendo os custos para o mercado brasileiro. E um dos problemas que estamos atacando, há muitos anos, é a questão da navegação de cabotagem. Essa navegação, por força da legislação brasileira, que cria uma série de dificuldades, custa, atualmente, por quilômetro navegável, de sete a dez vezes mais do que a navegação internacional. Não é sete por cento não, é sete a dez vezes mais.

AgroValor – Então podemos pensar que o Brasil é um país burro ou existem forças poderosas que o impede de avançar na navegação de cabotagem?

Fayet – Existem mesmo muitos interesses cruzados aí. E alguns que têm medo do futuro. Nós entendemos que o Brasil está pagando um preço muito caro por essas ineficiências. A sociedade acaba pagando com impostos ou com a restrição alimentar, devido ao encarecimento do custo de infraestrutura.

AgroValor – A CNA tem força para mudar esse quadro?

Fayet – Ninguém tem força total. Nós temos que ter um grande acordo nacional. Essa é a primeira questão. A outra questão é com a infraestrutura dos transportes. Na hora que nós resolvermos esses gargalos do setor portuário com o setor de navegação de cabotagem, o volume de produção será muito maior, tanto para a navegação como para o setor rodoviário e para os transportes ferroviários. Nós vamos aumentar a nossa capacidade de competir, isso é o que tem que ser visto.

AgroValor – Na opinião do sr., onde mais o governo deve atuar para que possamos alguns saltos nesse setor?

Fayet – As três primeiras prioridades nossas são: Portos, portos e portos!

AgroValor – Então onde estão as falhas no primeiro governo da presidenta Dilma e qual o salto que podemos obter na sua segunda gestão?

Fayet – Não podemos analisar governo de “A” ou “B”. Isso é um problema histórico no país. Nós estamos com atrasos que vêm de 20, 10, 5 anos, entendeu? São atrasos históricos. Eles continuam a acontecer e precisamos fazer uma concentração para tirar os obstáculos que estão aí. É um problema estrutural brasileiro, até porque o povo brasileiro não entendeu, ainda, essa mudança do país em relação ao agronegócio.

AgroValor – Essa mudança passa pela iniciativa privada com parcerias públicas ou decisões de políticas de crescimento de governo?

Fayet – Uma coisa que eu posso lhe dizer é o seguinte: O governo, dinheiro público, não tem recursos para fazer tudo que o país precisa em infraestrutura. Tem que contar com os investidores particulares. São eles que vão fazer o negócio. Nós só temos que ter uma formatação que torne tudo isso muito eficiente e muito claro para que não haja encarecimento nos custos dos transportes interno. E a outra coisa que precisa acabar no Brasil é o governo se meter em tudo. Isso atrapalha. Eu vou dar um exemplo: Como é que eu posso fazer um colégio, uma universidade, um hospital, somente com um alvará, e para fazer um terminal portuário, que é de interesse nacional, eu tenho uma legislação imensa, criando mil problemas, exigindo mil autorizações? É preciso repensar essa intervenção governamental no Brasil.

AgroValor – Todo ano o Brasil aumenta sua produção de grãos e as imagens mostradas na mídia são as mesmas, de desperdícios. O sr. vê alguma mudança a curto prazo?

Fayet – Olha, eu lhe digo que 90% dessa questão é incompetência administrativa. O Porto de Paranaguá mudou a sua administração há cerca de três anos e não enxerga fila, não enxerga desorganização. É o porto mais organizado e eficiente do Brasil. E o que é isso? É eficiência administrativa. Então não imagine que isso é um fenômeno nacional.  Isso é um problema de competência e de incompetência.

AgroValor – Os recursos anuais do governo para o plano de safra são suficientes ou o setor precisa de mais dinheiro?

Fayet – Se nós eliminarmos os obstáculos que temos o governo não precisaria fazer tanto esforço como faz. Aliás, isso é o que está na cabeça de muita gente: Nós temos que subsidiar, muitas vezes, o escoamento de safra porque o preço está muito baixo, porque não tem infraestrutura. Se tivesse, os preços não estariam baixos e o governo não precisaria fazer essa intervenção com o dinheiro público, como o dinheiro dos impostos.

AgroValor – O ‘custo Brasil’, que todo empresário reclama, tem a ver com os investimentos do Estado?

Fayet – É outra questão histórica. Eu, pelo menos, acho que poderíamos estar muito mais avançados do que estamos. Agora vamos fazer uma reflexão: Na minha apresentação [em Fortaleza], chamei a atenção para uma coisa que o povo brasileiro poderia começar a entender. Há 50 anos nós tínhamos que trazer comida do exterior para alimentar a população. E hoje somos o segundo maior exportador mundial. Daqui a poucos anos nós seremos o maior exportador mundial do agronegócio, ultrapassando os Estados Unidos. O povo tem que se conscientizar da riqueza que é o agronegócio para a economia brasileira, para os consumidores e para os produtores. E quando falo produtores, não é somente do dono da propriedade rural não, porque, para produzir, eu preciso da intervenção de muitos setores, produtores, transportadores, fertilizantes, defensivos, uma infinidade de atividades interrelacionadas. Há um erro no Brasil de achar que o agronegócio é o milionário que tem terras. Não senhor, tem muita gente que ganha salário mínimo e que, se o agronegócio não tivesse essa potencialidade que tem, o Brasil estaria morrendo de fome.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

PERFIL

QUEM É
Luiz Antônio Fayet, economista, 77 anos, de Curitiba (PR), consultor de logística da CNA.

O QUE FAZ
Consultoria empresarial no setor de logística e palestras sobre o setor de transportes.

O QUE FEZ
Foi professor na Universidade Federal do Paraná, presidiu o Banco do Brasil e exerceu o cargo de deputado federal 1983/86.

-----------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

Foto: Divulgação

comments powered by Disqus
 
INSTAGRAM
Rua Pinho Pessoa, 755, Fortaleza/CE
CEP 60.135-170
Central de Relacionamento
AgroValor (85) 3270.7650
Copyright © 2006-2014
WSete Design