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AgroValor

por Rogério Morais

No mundo dos negócios internacionais, o Brasil gravita em duas órbitas distintas: Uma é o mundo político, a outra é o mundo empresarial. “O mundo privado é um pagador das inconsistências da gestão pública”, afirma o superintendente de negócios internacionais da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC). O economista Eduardo Bezerra Neto, 70 anos, está na função há quase 20, e nesta entrevista exclusiva ao AgroValor fala das entranhas pouco conhecidas das táticas do comércio entre países. Um mundo de barganhas e espertezas em torno do lucro, que faz o chinês produzir comida no Ceará para alimentar a população do seu país. Para ele, o Brasil perde muito para a Argentina e já deveria ter deixado o Mercosul.

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AgroValor – Hoje os países criam mais barreiras comerciais?

Eduardo Bezerra – As barreiras podem ser técnicas ou tarifárias. Quando um país percebe que seu produto custa mais caro que um importado, ele joga uma barreira tarifária para garantir o mercado do produto nacional. A barreira técnica é criada para defender, principalmente, dos riscos de doenças. Mas há um detalhezinho, na barreira alfandegária, todo mundo nota porque é o aumento do imposto de importação. Mas nas barreiras técnicas as pessoas dificilmente observam, só quem está dentro do setor. Acontece que, muitas vezes, um governo muda a barreira técnica como um disfarce na alfandegária para impedir que um produto entre no seu país.

AgroValor – Isso acontece com naturalidade?

Bezerra – Veja o que a Argentina está fazendo com o Brasil. Por mim, o Brasil já teria saído do Mercosul, por causa da Argentina. Toda vez que aquele país tem um impasse, ele fecha a fronteira. A diplomacia econômica do Brasil com a Argentina tem sido danosa ao Brasil no âmbito do Mercosul. Atualmente eles vêm valorizando os produtos da China. E obviamente não dá para concorrer com o produto chinês. O Brasil está sendo colocado em xeque por conta da política argentina que, estando economicamente mal, prejudica as exportações brasileiras para a Argentina, que já caíram em torno de trinta por cento.

AgroValor – E essas práticas não são violações às normas internacionais?

Bezerra – São, mas é desse jeito que o mundo funciona. O senhor Putin [Vladimir Putin, presidente da Rússia] está fazendo os acordos dele lá. Por mim, a senhora Kirchner [Cristina Kirchner, presidente da Argentina] já estaria na cadeia há muito tempo.

AgroValor – E onde fica o poder da Organização Mundial do Comércio (OMC) nesse quadro de arbitrariedades?

Bezerra – A OMC é uma entidade muito boa para resolver pequenos problemas, mas não tem eficiência para resolver os grandes. E aí eu lembro a produção agrícola brasileira e a europeia. Os europeus subsidiam sua produção agrícola muito mais do que o Brasil e oferecem incentivos fiscais e creditícios. Existe lá a Rodada de Doha [negociação lançada em 2001, em Doha, Qatar, entre os países associados à OMC para diminuir as barreiras comerciais e facilitar o livre comércio] há mais de dez anos e ainda não se chegou a um resultado. A OMC cria um espaço de negociação mas ela não pode interferir nas decisões dos negociadores e todos eles têm orientação dos seus governos de como devem se comportar.

AgroValor – Então tudo se dirige ao plano político?

Bezerra – Exatamente isso. Mas não vamos reclamar da OMC, porque o que ela tem feito nos problemas menores tem gerado grandes benefícios ao planeta Terra, ao mundo inteiro. Agora, naturalmente, as Nações Unidas, pois ela é das Nações Unidas, não podem interferir na União Europeia.

AgroValor – E quais são essas relevâncias da OMC?

Bezerra – Não vou citar porque são dezenas de pequenos problemas que se resolvem. Por exemplo: Liberar a carne brasileira que é exportada para a Rússia.  Determinar que os produtos brasileiros entrem na Europa de uma maneira mais liberada. Essas coisas se fazem com muita facilidade. Agora, quando se analisa o setor agrícola como um todo (o Brasil é um grande exportador de commodities, a soja, o milho etc.), até chegar no exterior, vai encontrar as barreiras. Chegam a dizer que o produto brasileiro usa o dumping, e a Europa subsidia a sua produção às vezes de maneira disfarçada.

AgroValor – E quais são, hoje, os maiores problemas do Brasil – os gargalos – no mercado internacional?

Bezerra – Hoje o grande gargalo do Brasil se chama “União Europeia”. A Europa defende a sua agricultura. A França é o país que mais defende os seus produtores. Então, o grande problema do Brasil sempre foi a Europa, e depois a Ásia – China, Coreia, Vietnã, Japão. Mas o grande bloco é mesmo a China, um país múltiplo, dentro de uma fronteira política. 

AgroValor – E o que falta ao Brasil para ter mais eficiência?

Bezerra – Duas coisas. No passado tivemos uma diplomacia de tratados, hoje a diplomacia brasileira já evoluiu bastante, começamos a ter uma diplomacia de negócios. Mas um diplomata não sente o problema de uma empresa. A outra é a diplomacia do próprio empresário, visitar o importador em seu país. Considero os empresários brasileiros diplomatas empresariais. O Brasil sempre exporta produtos agrícolas. Consulte as estatísticas das contas exteriores brasileiras dos últimos três anos e confirme o crescimento das commodities agrícolas. A agricultura brasileira não sofreu queda alguma. É sinal de que a diplomacia dos empresários é uma diplomacia de sucesso.

AgroValor – E isso tem alguma relação com o papel das entidades classistas, como a CNA?

Bezerra – O Brasil é um país de dois mundos: o mundo político e o mundo empresarial. Os empresários brasileiros têm sido empresários de sucesso. E agora eu vou sair das commodities agrícolas para as outras. Por que a Vale e a Gerdau hoje são multinacionais, exemplos de sucesso empresarial mundial. Não existe empresa multinacional agrícola. O chinês está produzindo no Ceará alimento que vai para o consumo da população civil da China. Quem é que sabe disso? Só quem está no ramo. O Ceará produz alimento para a população chinesa. Aparece nas estatísticas? Não! Aparecem as estatísticas de exportação de produtos cearenses para a China. Então o mundo empresarial vive separado do mundo político. O mundo privado é um pagador das inconsistências da gestão pública.

AgroValor – E essa invasão de negócios chineses em todo o Brasil, é bom para estados pobres como o Ceará?

Bezerra – Lógico! Se estamos produzindo para a China e isso é exportação do Ceará, ótimo! A China compra minério de ferro no Ceará e deixa de comprar de Carajás, que é da Vale. Por que o chinês deixa de comprar da maior mina de ferro do mundo – a de Carajás, da Companhia Vale, para comprar minério de ferro no Ceará? Porque o ferro de Carajás tem o preço que a Vale administra. O ferro do Ceará é comprado por preço mais baixo. O Ceará é um exportador de minério de ferro.

AgroValor – O Brasil é um bom vendedor de commodities, mas também é um país “camarada” para os “invasores do mundo”?

Bezerra – O Brasil é um excelente comprador, porque ele facilita muito o ingresso do que vem de fora. Sem dúvida alguma, esse é o ponto fraco. Mas, veja bem, importação para quem tem o domínio da escala não se perde. Com todas as barreiras da União Europeia, o Brasil continua exportando para lá. Fala-se que franceses e portugueses querem vir produzir leite de cabra aqui porque sai muito mais barato eles produzirem com o caprino do Brasil do que produzir na Europa e transportar no Atlântico com custo mais alto.

AgroValor – A indústria brasileira de transformação passa por dificuldades?

Bezerra – A maior barreira que existe é barreira tarifária moderna do governo federal. O Brasil é um dos países com carga fiscal mais elevada. Isso prejudica enormemente a indústria de transformação em todos os setores. Não se pode pagar 42% de impostos quando existem países onde se paga 17%. Na China, um país capitalista nas relações externas e socialista politicamente, a carga tributária é ainda menor.

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PERFIL

QUEM É
Eduardo Bezerra Neto, 80 anos, de Fortaleza, Ceará, Bacharel em Direito, em Ciências Econômicas e Mestre em Ciências pela Universidade do Arizona, EUA, economista e professor. 

O QUE FAZ
Negócios internacionais, é superintendente do Centro Internacional de Negócios (CIN/Fiec).

O QUE FEZ
Foi chefe do setor de crédito rural do Banco do Nordeste e Superintendente da SUDEC (Superintendência do Desenvolvimento do Ceará).

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Foto: Divulgação

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