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por Rogério Morais

O Brasil está se destacando mundialmente na produção de leite e de produtos lácteos e o Nordeste conquista dianteira com um grande diferencial de mercado: Ganho de produtividade com o “menor custo do mundo”, como é o caso do Ceará. As informações são do empresário Jorge Parente Frota Júnior, 69 anos, sócio-conselheiro da Companhia Brasileira de Laticínios (CBL), entre as dez maiores produtoras do país. Essa produtividade nordestina tem como base o pasto irrigado, que atualmente destaca o Ceará como um referencial, atraindo até produtores do Sul e Sudeste. Nesta entrevista ao AgroValor, o economista fala sobre esse aquecido mercado, em todo o mundo, destacando a China, Estados Unidos e Europa, onde acontecem as maiores mudanças no setor.

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AgroValor – Como o sr. analisa, hoje, a produção de leite no mundo?

Jorge Parente – A produção mundial de leite é uma consequência do crescimento do mercado da China, que é uma grande consumidora. A projeção é que nos próximos dez anos haja um crescimento de mais de 30% do consumo atual do país, elevando para um total de 300 mil toneladas leite/ano. Deverá também haver uma modificação no status quo da produção [mundial] porque na Europa, desde a constituição da União Europeia, foram estabelecidas cotas para os países. Eles não podem ultrapassar tantas cotas de leite, por ser uma produção primária. Porém, esse regime de cotas está previsto para encerrar no próximo ano, quando deverá haver um acréscimo na produção de leite mundial.

AgroValor – E no caso do Brasil?

Parente – No caso do Brasil, vamos fazer um paralelo com um país grande, os Estados Unidos. Eles também deverão sofrer um incremento grande de produção nos próximos dez anos. Só que lá está havendo uma situação diferenciada: é um grande consumidor de leite do mundo, mas está ocorrendo uma modificação de consumo mais para a área de iogurte e derivados. O Brasil tem se caracterizado, nos últimos anos, como um grande produtor de leite, competitivo no mercado internacional. Esperamos, então, que haja uma consolidação nos produtos lácteos, incentivada também pelo crescimento do consumo gerado pelo aumento de renda das classes C, D e E.

AgroValor – A qualidade do nosso leite está no padrão internacional?

Parente – O Brasil, hoje, tem uma competitividade de produção de leite a nível global e há uma evolução crescente dessa produtividade.

AgroValor – Sobre os custos de produção, estamos conseguindo chegar ao ideal ou precisamos nos adaptar?

Parente – Aqui o custo de produção de leite, hoje, é competitivo. O Brasil até teve uma época, há dez anos, em que o custo era muito alto, mas com a introdução de modificação na área de produção, como se diz, ‘da porteira para dentro’, houve uma redução. O grande problema é a logística. Como o Brasil não tem uma infraestrutura rural, nós temos uma produtividade melhor na produção no campo, mas para chegar aos centros consumidores o produtor é onerado pela falta de logística nas estradas e no escoamento da produção.

AgroValor – Como o sr. avalia a nossa diversidade de produtores (pequeno porte), comparada com a de outros países, como EUA, Índia e Uruguai?

Parente – A forma de se produzir leite, antigamente, não era como um produtor profissional. Ele só produzia na época das chuvas ou também com base na disponibilidade de ração. Hoje, os grandes produtores estão produzindo leite como um negócio. O leite é um negócio diferenciado de outras produções do campo. A produção é de janeiro a dezembro. A vaca produz o ano todo, de forma competitiva, se tiver uma alimentação adequada. E a indústria processa durante o ano todo. E o consumidor consome o produto todos os dias do ano. O Uruguai já foi um grande player do passado, cerca de vinte anos atrás. Atualmente, o Brasil está muito acima da produção do Uruguai. A Argentina, sim, ainda é um grande player, inclusive exportando para o Brasil. Mas a cada ano a Argentina vem perdendo participação relativa no mercado internacional. Hoje, os grandes produtores são a Nova Zelândia e a Austrália.

AgroValor – Em relação à produção da região Nordeste do Brasil, têm havido avanços?

Parente – No Nordeste o problema tornou-se sério nesses últimos três anos, com a irregularidade da quadra pluviométrica, que alguns chamam de seca, mas seca grande mesmo houve apenas em 2012. A região teve esse problema, mas, especificamente no caso do Ceará, como uma exceção à regra, passou a ter o binômio na produção de leite, que é ancorado na irrigação e no sol. Nós [Ceará] produzimos leite na base do capim, com os projetos irrigados.

AgroValor – Esse potencial (irrigação) vem atraindo produtores de outros estados para o Ceará?

Parente – Essa é a grande arma que o Ceará tem para atrair investidores para produção de renda e emprego no campo, com produção competitiva e com produtividade, pois são essas as nossas características. É um mercado garantido porque o parque industrial do estado tem condições de comprar toda essa produção de leite, de forma que não precisa trazer matéria-prima de outros estados.

AgroValor – E sobre a qualidade do nosso bovino de leite, é o ideal ou temos que mudar a genética?

Parente – A genética, a tecnologia e a inovação são sempre bem-vindas. Precisamos ter um laboratório permanentemente aqui no Ceará, um laboratório de genética, com a distribuição de sêmens para que as futuras gerações bovinas do Ceará possam ser de uma raça melhor do que a que temos hoje. Esses grandes players que eu citei, já trabalham com a produtividade de vaca muito elevada, com três ordenhas diárias de leite. Com a implantação de um laboratório de leite, um laboratório de genética, e com a oferta de implantação de sêmens nas matrizes, poderemos ter uma melhoria no futuro.

AgroValor – O sr., então, acha que a produção do campo no sertão passa, necessariamente, pela irrigação?

Parente – O Ceará tem apenas 90 mil hectares produtivos de agricultura irrigada. E tem cerca de 2 mil hectares produzindo agricultura de sequeiro. Só que esses 90 mil hectares representam somente cerca de quatro por cento do total, e produz cerca de 40 por cento do valor da produção do agronegócio do Ceará, cerca de um bilhão e 300 milhões de reais. Já existem, hoje, mais 60 mil hectares para serem trabalhados com a agricultura irrigada.

AgroValor – O sr. vê alguma perspectiva de mudanças na ordem econômica do Brasil?

Parente – O Brasil precisa ter uma mudança radical na sua ordem econômica. Nos últimos quatro anos, o Brasil cresceu abaixo de todos os índices medidos nos emergentes. O país saiu da faixa dos cinco maiores emergentes. E, se comparado com a América Latina, o Brasil só é superior ao PIB da Argentina e da Venezuela. Precisa-se de uma mudança substancial na política econômica brasileira para retomar o seu crescimento econômico. Mas não fundamentado no consumo, fundamentado no investimento e no aumento de produtividade. O investimento é que vai tornar o Brasil um país economicamente rentável e competitivo.

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PERFIL

QUEM É
Jorge Parente Frota Júnior, cearense, 69 anos, economista, sócio da Companhia Brasileira de Laticínios (CBL).

O QUE FAZ
Conselheiro na CBL, vice-presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), e membro do Conselho do Fórum Nacional da Indústria.

O QUE FEZ
Presidiu a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec).

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Foto: Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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