AgroValor Publicidade
AgroValor

Por Angelo Tomasini

A agropecuária brasileira tem importância fundamental para o sustento do país. No Nordeste, principalmente, pois a seca e a crise no abastecimento exigem providências públicas para amenizar os contratempos dos agropecuaristas. Flávio Saboya, presidente da Faec, é um desses líderes que tentam manter a prosperidade no campo mesmo em tempos difíceis. “Neste quadriênio de secas temos atuado de forma especial nas questões emergenciais”, revela. Em destaque, a produção de forragem nas áreas irrigadas, a garantia de oferta de milho nos pontos de venda e a renegociação das dívidas rurais. Essas frentes são conciliadas com projetos, viagens a outros países em busca de práticas adaptáveis ao solo cearense e idas constantes a Brasília, onde possui assento na diretoria da CNA. Neste ano, assumiu também a presidência do conselho deliberativo do Sebrae/CE. Entre idas e vindas, Saboya nos concedeu esta entrevista onde fala sobre os problemas do campo e as suas possíveis soluções.

AgroValor - Quais as grandes necessidades do homem do campo hoje?
Flávio Saboya - A criação imediata de um Programa Regional de reestruturação e incentivos às atividades agropecuárias no semiárido nordestino, aliando-o a uma ação de reeducação do homem nas formas de exploração face às intempéries climáticas. A Faec defende desde 2012 duas propostas essenciais: a criação do “Seguro Seca” que permitirá a necessária cobertura das atividades econômicas na região; e a criação do “Hora de Guardar”, que engloba um programa de reserva alimentar animal. A segurança alimentar animal é indispensável para uma região invariavelmente castigada por secas. A produção de alimentos forrageiros para viabilização de silagem e feno é condição indispensável para a condução de uma grande pecuária regional. Já levamos nossas ideias aos governos federal e estadual.

AgroValor - Como a Faec tem feito para auxiliar?
Saboya - Propondo ao governo do Ceará um Programa específico de assistência técnica voltado para a pequena e média produção, fundamentando-o na segurança alimentar animal, já que as cadeias produtivas da pecuária representam quase a totalidade das atividades econômicas no bioma Caatinga. A categoria de pequenos e médios produtores está representada por mais de cem mil estabelecimentos do Ceará.

AgroValor - O Nordeste finalmente conseguiu livrar-se do estigma da aftosa. No que essa conquista mudou de concreto na vida do pecuarista?
Saboya - A mudança de status para livre da febre aftosa com vacinação permitiu a integração dos nossos negócios agropecuários com o resto do Brasil. Com essa nova realidade, a ovinocaprinocultura nordestina hoje representa o maior rebanho do mundo livre de barreiras sanitárias, abrindo perspectivas de vendas para outros grandes centros consumidores, dada a posição geográfica do nordeste brasileiro. No entanto, apesar dessas boas perspectivas, praticamente ainda nada mudou, face à longa crise climática que ora vivenciamos mas, também, em nossa visão, à resistência do produtor às mudanças no uso de novas tecnologias disponíveis e à pouca visão empreendedora.

AgroValor - A Faec sempre tem mantido boas relações com o Estado. Existem parcerias estabelecidas hoje? Quais?
Saboya - O governador Camilo Santana é um engenheiro agrônomo sensível à realidade do homem do campo. Na campanha eleitoral [de 2014], convidamos os candidatos para o Agropacto [colegiado que reúne semanalmente representantes dos setores público e privado para discutir assuntos referentes à atividade rural no Ceará], quando entregamos um documento intitulado “O que esperamos do próximo governador”. No bojo desse documento existia a proposta de criação de uma secretaria estadual que atendesse os mais de cem mil pequenos e médios produtores, órfãos das políticas públicas, já que a agricultura familiar, com muita propriedade, contava com o importante apoio da Secretaria do Desenvolvimento Agrário. O governador eleito Camilo Santana atendeu o nosso pleito, incluindo esse público na nova Secretaria da Agricultura, Pesca e Aquicultura. No momento, trabalhamos juntos em uma proposta inovadora de assistência técnica aos pequenos e médios produtores.

AgroValor - Atualmente o sr. faz parte do conselho deliberativo do Sebrae/CE. Como essa função agrega na sua ligação com o homem do campo?
Saboya - O Sebrae/CE é uma entidade essencial para o desenvolvimento de todos os segmentos econômicos do Ceará. Apesar de somente a partir de 2015 havermos assumido a presidência do Conselho, nossa relação e parcerias têm mais de vinte anos de atuação conjunta em prol dos pequenos negócios no meio rural. Neste momento, estamos implantando o projeto “Sertão Empreendedor”, em trinta e oito municípios, com mais de setecentos pequenos e médios produtores das principais cadeias produtivas.

AgroValor - O que falta ao agropecuarista cearense hoje para que ele possa se desenvolver mais?
Saboya - Desaprender e abraçar as novas tecnologias. O semiárido nordestino é promissor e tem potencial para o desenvolvimento de uma pecuária competitiva. Veja os exemplos. Entre os quinze maiores produtores de leite do Brasil, três estão no Ceará. A apicultura está entre as maiores do Brasil e já somos grandes exportadores.

AgroValor - Qual a avaliação que o sr. faz do trabalho de Kátia Abreu à frente do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa)?
Saboya - A ministra Kátia Abreu, ao assumir a Pasta da Agricultura, afirmou, categoricamente, que criaria e apoiaria a classe média da agricultura. Suas medidas iniciais já comprovam esse propósito, ao criar um programa específico para o Nordeste. Consideramos essa iniciativa muito oportuna, pois pesquisas do próprio Mapa afirmam ser o Nordeste a região que detém 44% de todos os médios produtores brasileiros e que esses, também, representam 15% dos negócios agropecuários brasileiros e que lhes pertencem 25% da área de todos os médios do Brasil.

AgroValor - O sr. tem viajado a muitos países. O que viu de diferenças e semelhanças com o campo do Nordeste? E como isso pode ajudar no desenvolvimento da região?
Saboya - Em recente viagem à Austrália, observamos que a pluviosidade média das regiões em que predomina a ovinocultura gira em torno de 500mm a 600mm de chuvas e que, a cada dez anos, essas regiões têm de três a quatro secas. Todavia, a ovinocultura e a bovinocultura são expressivas. Que diferenças existem? Inicialmente, destacaria o homem, que desenvolve uma pecuária respaldada por tecnologias que estão aqui, também, disponíveis. A resistência às mudanças que nos caracteriza leva-nos à estagnação e ao conformismo. A produção e reserva alimentar de seus rebanhos [australianos] são práticas constantes em todas as propriedades, permitindo uma perfeita convivência com a baixa pluviosidade e as secas intermitentes. Desde 2012, temos defendido um Programa que denominamos “Hora de Guardar”, que se bem administrado, a problemática decorrente das secas desaparecerá.

___________________________________

PERFIL

QUEM É
Flávio Viriato de Saboya Neto, 70 anos, engenheiro agrônomo, natural de Fortaleza (CE).

O QUE FAZ
Preside a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado do Ceará (Faec), o Conselho Deliberativo do Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa do Ceará (Sebrae/CE) e é Vice-Presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).

O QUE FEZ
Foi funcionário da então Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Ceará. Foi diretor técnico e chegou a assumir o cargo de secretário interinamente.

Foto: Divulgação
 

comments powered by Disqus
 
INSTAGRAM
Rua Pinho Pessoa, 755, Fortaleza/CE
CEP 60.135-170
Central de Relacionamento
AgroValor (85) 3270.7650
Copyright © 2006-2014
WSete Design