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Artes e Diversão

Há seis décadas, promover festas para o aniversário da cidade era um anseio de 20 amigos de Barretos (SP). Em 15 de julho de 1955, os jovens solteiros e já desgarrados da dependência financeira dos pais chegaram a um consenso durante uma conversa de bar. Surgia assim o grupo Os Independentes, mais tarde conhecido como organizador da Festa do Peão, maior rodeio da América Latina que em 2015 completa 60 anos.

Uma história de recordes, transformações e polêmicas que para ser entendida precisa ser contada desde a primeira metade do século 20. Naquela época, Barretos era parada de comitivas que levavam boiadas do Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás até um frigorífico local. Com ordenados pagos, muitos peões permaneciam na localidade, fato que movimentava noitadas em cabarés.

Preocupado que a farra dos trabalhadores atrapalhasse os festejos do aniversário da cidade, o então prefeito Mário Vieira Marcondes organizou em 1947 um rodeio, somente com montarias a cavalo – disputa comum entre peões na época – em um picadeiro montado no Recinto Paulo de Lima Correa, espaço de dois alqueires e meio no Centro do município.

O sucesso daquela iniciativa inspirou Os Independentes a realizar oficialmente em 1956 a primeira Festa do Peão de Boiadeiro em dois dias - 25 e 26 de agosto. Depois de promover um ano antes uma "gincana automobilística" em prol de um asilo, o grupo uniu, em um mesmo evento no Recinto Paulo de Lima Correa, montarias a cavalo, apresentações de duplas sertanejas como Torres e Florêncio e a Queima do Alho – com a disputa da comitiva que preparava a melhor refeição tropeira no menor tempo.

Nos primeiros anos da festa, também foram agregadas à programação danças árabes e portuguesas de famílias radicadas em Barretos, bem como concursos de catira.

Diferente de hoje, os peões, em torno de 15 a 20 e geralmente de propriedades da região, usavam calças largas em vez de jeans, lenços no pescoço e guaiacas – vestimentas do dia a dia no campo –, explica Mussa Calil Neto, membro de Os Independentes e um dos 25 presidentes na história do clube.

“As premiações eram com doações feitas pelos grandes fazendeiros, como selas para cavalos e capas. Prêmio em dinheiro eram as chamadas mil amarelinhas, mil notas de um cruzeiro que eram amarelas com Pedro Álvares Cabral [estampado]”, acrescenta.

Na medida em que o evento ganhou notoriedade fora da região, pela divulgação da imprensa e da presença de artistas, autoridades do Estado e da União, a programação se expandiu para cinco dias e a cidade passou a atrair peões de outros países, como Uruguai, Argentina e Paraguai.

Modernização
Os anos 1970 e 1980 foram pano de fundo para transformações que gradativamente estabeleceram o atual estilo da festa, como a adesão de patrocinadores oficiais. Em 1973, pela primeira vez, um peão, Laurindo Bernardes de Souza, de Jales (SP), ganhou como prêmio um carro - um Fusca 1300 zero quilômetro.

Recorrente desde os primeiros anos, os concursos da Rainha do Rodeio também ganharam um formato novo. Se nas décadas anteriores eram mobilizados pela compra de votos, nesse período passaram a ser realizados por jurados e embalados por torcidas no Ginásio Municipal de Esportes, o Rochão, lembra Marilda Santana, de 71 anos, primeira mulher a receber um título de Os Independentes devido aos serviços prestados ao clube por mais de 30 anos.

"Nas primeiras edições, conta a história do clube, eram vendidos os votos. Aquela que arrecadava o maior número ganhava. Depois teve uma época em que eram escolhidas filhas de pecuaristas. Acredito que tenha sido por oito ou nove anos. Foi a partir dos anos 1970 que houve a escolha das rainhas com júri. Ganhava aquela que fosse a mais bonita e bem trajada, mas a beleza física tinha que estar aliada ao desembaraço", diz.

A influência americana também acompanhou essas mudanças, visíveis no estilo dos peões. Com jeans e fivelões, eles ficavam cada vez mais parecidos com os cowboys americanos. Período em que também começaram a ser introduzidas novas modalidades ao rodeio, dentre elas a montaria em touros - até então praticada como exibição.

Parque do Peão
Para atender ao número crescente de visitantes, as arquibancadas montadas foram ficando cada vez mais altas no Recinto Paulo de Lima Correa nos anos 1980, lembra Calil Neto.

"O público começou pequeno, de três mil a quatro mil pessoas, e foi aumentando, até que teve um pico em 1983, com 13 mil pessoas. Era o que cabia dentro do recinto. O espaço era pequeno, delimitado por uma avenida na frente, pela linha do trem ao fundo e pelo Grêmio Literário e Recreativo. Não tinha camping nem estacionamento", afirma.

Em 1984, Calil Neto era presidente do clube e iniciou a mudança para a propriedade de 40 alqueires -- fora da cidade e adquirido anos antes pelo grupo -- que hoje abriga o famoso Parque do Peão. A alteração, no entanto, foi alvo de impasse entre os próprios integrantes de Os Independentes, temerosos de que isso pudesse afastar o público e manchar a tradição do rodeio.

Apesar de uma votação de maioria contrária em assembleia, o então presidente insistiu em realizar, em 1985, a primeira festa do peão fora do Recinto Paulo de Lima Correa, após 29 anos. "Houve uma resistência muito grande, me chamaram de louco, disseram que eu ia acabar com a tradição da festa."

Para bancar as despesas com infraestrutura, ele vendeu uma gleba de cinco alqueires pertencente ao clube. Alegando falta de projetos locais, pediu a Oscar Niemeyer (1907 - 2012) que elaborasse a planta baixa do futuro recinto do rodeio. O renomado arquiteto carioca não só aceitou o convite como fez o projeto sem cobrar nada. No mesmo plano de obras estavam previstas áreas para restaurantes, estacionamento, estandes e o estádio de rodeios, inaugurado somente quatro anos mais tarde.

Aproveitando a visita ao Rio de Janeiro, para deixar materiais no escritório de Niemeyer, Os Independentes conheceram a estrutura de um mega evento da época. "Em dezembro de 1984 fomos ao Rio de Janeiro e demos sorte porque no dia 15 de janeiro, 17 dias para frente, começaria o Rock in Rio. A comunicação visual foi copiada do Rock in Rio."

A 30ª edição da festa aconteceu em um parque ainda totalmente aberto, com pouca iluminação, acesso pago apenas à arena, e atrações como Elba Ramalho. Em 1989, o estádio de rodeios, também pensado por Niemeyer, foi inaugurado com capacidade para 35 mil pessoas em formato de ferradura.

Sucessivamente, nos anos 1990 e 2000, o Parque do Peão foi ganhando novos espaços como o Rancho do Peãozinho e o Museu do Peão. Neste período, o reconhecimento da festa se converteu no ingresso de Barretos para o circuito mundial de montarias da Professional Bull Riders (PBR), bem como em grandes apresentações musicais como de Garth Brooks, em 1998.

"Dezessete anos atrás entraram 44 mil pessoas no estádio para ver Garth Brooks no sábado e 50 mil pessoas no domingo, para o show dos Amigos [grupo formado pelas duplas Chitãozinho & Xororó, Zezé Di Camargo & Luciano e Leandro & Leonardo]", diz Calil Neto.

Entre 2004 e 2005, Barretos foi set de gravações da novela América, da TV Globo, reforçando sua vocação para o rodeio e a fama do Touro Bandido, temido nas arenas do país.

A trama assinada por Glória Perez enalteceu a figura do peão de boiadeiro Tião, vivido por Murilo Benício, e da imigrante Sol, papel de Deborah Secco.

Na mesma época, quando a festa completou 50 anos, foi inaugurado no parque o monumento em homenagem ao peão, apelidado de Jeromão - uma menção ao então presidente de Os Independentes, Jerônimo Luiz Muzetti.

A repercussão do evento também impulsionou polêmicas, como a morte de um bezerro durante uma prova de bulldog - em que o peão deve derrubar o animal pelo pescoço no menor tempo possível - em 2011. Desde então, a modalidade foi banida do rodeio oficial em Barretos. 

Futuro
Com uma média de público de 900 mil pessoas por edição - o equivalente a nove vezes o tamanho da população local -, hoje a Festa do Peão é conhecida como o maior evento do gênero da América Latina e carrega o dilema de abraçar as mudanças sem deixar de lado as tradições.

Uma sucessão que ficará nas mãos de pessoas como Pedro Muzetti, de 24 anos. Filho de Jerônimo Muzetti, o jovem estudante de engenharia em São Paulo se tornou um dos cem membros de Os Independentes em 2012 por vontade própria, depois de anos atuando como aspirante na associação.

Prestes a se formar, ele pretende se estabelecer em Barretos ao término da faculdade para seguir os passos do pai e colocar suas ideias em prática, seguindo a fórmula da modernização sem se esquecer do passado.

"Vejo meu pai e me inspiro muito nele para tudo que eu faço. Quando eu fui entendendo a grandeza da festa fui vendo aquilo como meta para mim. O maior sonho que tenho é ser presidente de Os Independentes", diz.

Fonte: G1
Foto/legenda: 
Em 1985 aconteceu primeira festa fora do Recinto Paulo de Lima Correa (Foto: Arquivo/ Os Independentes)
 

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